Menu Content/Inhalt
Início
Actualizado a:
28 de Novembro de 2008
 
         eXTReMe Tracker
2003 - EUA do pós-Golfo, face ao mundo e a Angola | Imprimir |
EUA DO PÓS-GOLFO, FACE AO MUNDO E A ANGOLA
por: Eugénio Costa Almeida©

     Há algum tempo deixei no ar a hipótese de que a Guerra do Golfo II não se ia ficar somente pelo Iraque alastrando-se, por certo, a países limítrofes (Síria e Irão) e esperava que a Coligação vencedora (EUA e Reino Unido) tivesse alguma contenção e, caso mantivesse a sua atitude de prolongar o conflito por aqueles Estados, o fizesse o mais tarde possível.
     Essa, todavia, era o pensamento do membro mais poderoso, ou mais beligerante, da Coligação. De facto, quer a Administração Bush, através do seu presidente Bush, quer o Secretário da Defesa, Rumsfeld, ou do doutrinador Secretário-adjunto da Defesa, Wolfowitz (1), afirmavam (e afirmam), repetidamente, a hipótese de “punir” a Síria, um dos “parceiros do Eixo do Mal”, reconhecendo-a, ser agora, um Estado ditatorial mas, acima de tudo, um Estado fomentador e co-financiador de movimentos terroristas anti-israelitas e anti-judeus – o Hezbollah é o caso mais evidenciado, por também apoiado pelo Irão -, guardião de material bélico químico-biológico (algum, segundo alguns sectores norte-americanos, proveniente do Iraque) e de acoitar antigos membros e dirigente políticos iraquianos. Essa política foi, de certa forma, reafirmada com o apoio tácito dos norte-americanos ao recente ataque israelita à Síria.
     Mas porquê a Síria e não o Irão; o maior inimigo dos norte-americanos e com quem mantém uma questão de vingança nunca resgatada. Além de tudo mais, os iranianos são os maiores defensores do islamismo e dos maiores financiadores movimentos anti-judaicos e, ou, não-cristãos.
     É simples; a Síria está próxima do Estado de Israel e vem reclamando, ao um tempo a esta parte como contrapartida de um abrandamento de atentados contra Israel a partir do Líbano e da Síria, a devolução dos estratégicos Monte Golan perdidos nas Guerras dos 6 dias (1968) e de Yon Kippur (1970). Por outro lado é preciso não esquecer que os principais, e maiores, financiadores dos EUA são financeiros judeus, ou pró-judaicos, sediados em New York. Daí que os sírios sejam, ou perfilem-se, como a próxima vítima do neo proto-hegemonismo americano; isto apesar do outro parceiro da Coligação continuar a desmentir e inoportuna essa possibilidade. Os interesses que os britânicos mantém naquele país são muito importantes. Por outro lado, um Estado de Israel muito forte seria o completo redesenhar do Médio Oriente. E isso a Europa nunca iria, de todo, aceitar.
     E depois da Síria, será o Irão? a Jordânia – antigo aliado, ou não hostil, do Iraque? a Coreia do Norte? – que a própria Rússia, pela voz do seu vice-Ministro das Relações Exteriores, Alexander Lossioukov, já considerou ser uma zona muito complicada e aconselhou os norte-coreanos a colaborarem com as autoridades onusianas? o Sudão, a Líbia? Como referia há dias o meu colega e amigo Prof. Mário Pinto de Andrade, em entrevista à Televisão Pública de Angola (TPA), os EUA começam a sentirem-se como a hiperpotência com falta de um contrapeso à sua crescente influência no areópago internacional.
     Mas, e o que pode ter isto a haver com Angola? Qual tem sido a desculpa dos EUA e dos países da Coligação para atacarem, ou veladamente ameaçarem, os diferentes países? Serem portadores de armas de destruição maciça, química e biológica.
     Mas dirão que Angola não se enquadra nestes parâmetros. E o Iraque, provou-se a existência de armas deste calibre? Até agora continua a não se provar essa existência. Mas tinha mísseis balísticos; de facto. Tal como a Síria, como o Irão, como a Coreia do Norte, como a China, como a Rússia, e como os EUA ou o Reino Unido. Só que estes cinco últimos têm-nos intercontinentais.
     E Angola, só deverá ter uns pequenos projécteis balísticos de curto alcance. Alguns poucos SAM6 dos primórdios da Guerra-Civil. De facto. Mas podem ser carregados com uma qualquer bactéria. É que Angola, como qualquer Estado que se quer desenvolvido, e utilizando a sua “massa cinzenta”, deverá querer criar laboratórios para estudar e desenvolver meios veiculares que protejam a sua população de diferentes endemias, como a cólera, a febre amarela, a malária, etc. Ora estas endemias para serem combatidas têm de ter alguns genes armazenados para, mais tarde, poderem ser feito vacinas. Pois essa armazenagem, na concepção de alguns dirigentes americanos, tornam esses Estados em potenciais Estados do Mal, por portadores de agentes químicos.
     E com a solidificação da Paz, Angola começa a perspectivar-se, com cada vez maior evidência, como uma potência local... E de potência local a potência regional com capacidade de projecção... É preciso que eles deixem.
     E parece ser isso o que, neste momento, não perspectiva acontecer. Senão vejamos.
     Por uma razão qualquer que escapa ao comum dos mortais e, também aos analistas políticos locais (o editorial do Jornal de Angola-online da passada semana é prova disso), o Departamento de Estado dos EUA considerou pouco aconselhável o investimento norte-americano em Angola – a estabilidade no país não era de todo segura – pelo que, qualquer investimento a acontecer era de risco elevado.
     Os analistas angolanos, questionaram-se se o investimento era desaconselhável, então como se justificava os elevados milhões de dólares que, diria quase diariamente, eram canalizados para o país por via da exploração petrolífera. As maiores companhias petrolíferas norte-americanas operam directa, ou indirectamente, em Angola e, através desta desejam operar no offshore santomense. Daí que tenham já pedido apoio às autoridades angolanas nesse sentido. E não é em vão que Angola foi um dos convidados a participar na West African Oil and Gas Forum, no Texas, EUA, levado a efeito pelo Corporate Council on África, uma organização representativa de mais de 150 petrolíferas norte-americanas estabelecidas em África.
     Igualmente, e de acordo com a Voz de América, citada pelo Paralelo 14(2), o indigitado Ministro-Conselheiro Plenipotenciário de Angola, junto da UNESCO, Pierre Falcone – conectado com o tráfico de armas e com a venda de armas ao exército angolano durante a Guerra-Civil – viu recusado o visto de entrada nos EUA onde residem a esposa e filhos. Só que neste caso existe outro paradoxo. Na Internet, sítio pessoal de Falcone “Army of One” é, em tudo, uma divisa semelhante à que a US Army utilizou, em tempos, numa campanha de recrutamento “An Army of One”(3).
     Ou seja. As contradições norte-americanas, no que diz respeito à política internacional torna-se cada vez mais, confusa, desconexa e, quando caso disso, prepotente. Parece que o Departamento de Estado, desde que se tornou órfão do grande inimigo do Leste – a ex-URSS e os sovietes – se tornou numa “pré-primária” da Política Internacional, tal são os erros com que se apresentam perante o sistema internacional. A análise da estabilidade política, em Angola, é caso disso. Ou será que os operacionais norte-americanos que estão estacionados em Angola, vêm em cada manifestação das organizações políticas que se autodenominam de Oposição não-armada, igualmente reconhecidos pelos Partidos da Oposição Civil (POC), como meios de intervenção política e social fortemente desestabilizadores? e isso não é devidamente reavaliado em Washington? parece que não.
     O problema da gestão republicana, em Washington, é estar sozinha num Mundo cada vez mais globalizante e potencialmente menos auto-subserviente – exceptuam-se, orgulhosamente sós, alguns países – e mais questionante.
     Uma vez mais, vou-me utilizar das palavras do Prof. Mário P. de Andrade “... é necessário criar um contrapeso à crescente influência dos EUA no Mundo.” Estão órfãos. E a ONU não me parece ser, no contexto actual, a entidade mais consistente e ideal.

    Notas:
  1. O Secretário-adjunto da Defesa, Paul Wolfowitz, defende a “Teoria do dominó”, que consiste na mudança completa do mapa político do Médio Oriente. Segundo alguns analistas americanos, esta tese já está a ser implementada, tendo-o sido pelo elo mais fraco, o Iraque.
  2. www.portaldecaboverde.com, de 07.Out.2003
  3. Ibidem.

©(Publicado no Jornal Lusófono, edição nº. 39, 24.10.2003)
 
< Anterior   Próximo >