Menu Content/Inhalt
Início
Actualizado a:
15 de Agosto de 2008
 
         eXTReMe Tracker
2003 - O mundial de hóquei em patins e o serviço (IM) público da RTP | Imprimir |
O MUNDIAL DE HÓQUEI EM PATINS E O SERVIÇO (IM)PÚBLICO DA RTP
por: Eugénio Costa Almeida©

     Entre 28 de Setembro e 4 de Outubro ocorreu em Portugal, mais concretamente em Oliveira de Azeméis, o 35º. Campeonato mundial de hóquei em patins, um excelente evento desportivo que, a par do futebol e de algumas modalidades ditas semi-amadoras é muito querido a alguns países Lusófonos.
     Ao contrário do que, habitualmente acontecia – onde a supremacia hispânica era sempre um facto – desta feita foram 4 os países lusófonos presentes; Portugal, que viria a conquistar o ceptro de campeão do Mundo; o Brasil, que ficou em 5º. Lugar; Angola que obteve uma honrosa 8ª. posição; e Moçambique que, embora se tenha quedado pelo 10º lugar, chegou, de acordo com a comunicação social, praticar um belíssimo hóquei tendo, inclusive assustado a Espanha, na altura só a campeã do Mundo, em título (de acordo com essas mesmas fontes, só uma arbitragem pouco séria, impediu de Moçambique ganhar esse jogo).
     Como já devem ter reparado, eu limito-me a citar, no que se reporta aos países lusófonos, que não Portugal, as informações escritas e webs da Comunicação Social e, ou, as parcas informações que a empresa pública de televisão portuguesa, RTP, nos prestava no decorrer dos jogos da selecção portuguesa – por vezes informações que contrariavam o seu próprio teletexto –. De facto a Rádio Televisão Portuguesa prestou um brilhante serviço público. Senão vejamos.

  1. Quantos jogos da selecção portuguesa foram transmitidos, em directo, pela RTP (canais 1, Internacional e África), além de serem reportados nos diferentes noticiários televisionadas? Todos; e diga-se, exceptuando a entrega dos prémios – e aqui registe-se que a culpa não deve ter sido deles – foram uma excelente propaganda ao desenvolvimento da modalidade;
  2. Quantos jogos foram transmitidos do escrete canarinho? Um; o jogo dos quartos de final que opôs a Portugal. Elementar;
  3. Quantos jogos foram transmitidos de Angola e Moçambique – pelo menos para Portugal, onde existe um diáspora bastante significativa – nenhuns. E para estes países? De contactos havidos com pessoas amigas, em Angola, sei que alguns jogos foram transmitidos pela TPA (o mesmo deverá ter acontecido com a TVM e a selecção moçambicana). E os milhares da diáspora que não tiveram oportunidade nem possibilidade de, no local, assistir aos jogos das suas selecções, não contam?

     No mínimo, é interessante. Principalmente quando, há um tempo, se verificou a assinatura de dois protocolos que, previsivelmente, levariam à reciprocidade de programas radiofónicos e televisivos entre os países Lusófonos.
     Lembro-me de já ter aplaudido, nestas páginas(1) a nova política Lusófona da rádio e televisão. Quer para os programas televisivos (telenovelas, reportagens, debates, etc.) originários dos PALOP, quer para eventos desportivos, com particular realce para as transmissões directas de jogos do Girabola (campeonato angolano de futebol). No que toca a estes, foi sol de pouca dura. Provavelmente, e passe a imodéstia, deverão ter ficado ofendidos por ter aplaudido essa atitude. Consegui ver um jogo da equipa representante da minha cidade, um jogo entre luandenses e... nada mais. O resto vejo, quando o horário de transmissões o permite, algumas discretas e tímidas peças num programa da RTP África, o RTP Sport.

     Nem mesmo quando ocorreu o Campeonato pré-olímpico de Andebol, onde as angolanas apresentavam-se com aspirações legítimas, e plenamente confirmadas, a diáspora teve direito a qualquer transmissão televisiva. Note-se que a rádio também não está livre de críticas. O que vale é que, a espaços, vão-nos informando sobre o desenrolar das partidas. Não creio que tenha sido isto que o ministro angolano Vaal Neto e o seu homólogo português tenham assinado em Luanda e em Lisboa, nas chamadas Declarações de Luanda e de Lisboa. Se foi, desiludiram a diáspora africana. Agradecemos que nos digam. É que o Mundial de Hóquei em Patins deixou-nos a todos com esse travo acre na boca.
     Realmente, que interessa à diáspora africana em geral, e angolana e moçambicana, em particular, as contínuas transmissões televisivas da equipa portuguesa? É para os hoquistas, que ficaram nos nossos países aprenderem novas técnicas de bem jogar hóquei? Não creio.
     Se fosse essa a vontade, então caberia ao Comité Internacional de Rink Hockey (CIRH), à Federação Internacional de Roller Skating (FIRS) e à Federação Portuguesa de Hóquei em Patins criar um torneio, tipo Taça Latina, onde participassem todos os países lusófonos e, ou, latinos, mesmo que para camadas mais jovens, já que são estes que mais tarde nos poderão proporcionar muitas alegrias. De certeza que esse torneio transmitiria ensinamentos mais úteis que uma simples transmissão de 50 a 60 minutos de hóquei em patins. Estas seriam a parte complementar do ensinamento.
     Só que, a fazer fé num artigo publicado por um jornal desportivo português(2), por vontade da FIRS, cinco países, entre os quais Angola, Brasil e Moçambique, não teriam participado no Mundial de Hóquei, por dívidas – quotas anuais não pagas – àquele organismo, por sinal e, penso, que só por mero acaso, é dirigido por um espanhol. Provavelmente já adivinhava o osso duro que Moçambique iria ser.
     Mas, voltando à questão inicial. Porquê que a RTP, e principalmente a RTP África, não transmitiu nenhum jogo dos países africanos. Será que a RTP (África e Internacional) só é sintonizada nesses países e, por tal facto, desnecessário mais propaganda (do que aquela levada a efeito pelas televisões locais) ao hóquei em patins. E porque não transmitiu outro qualquer jogo do Brasil, na RTP Internacional, sabendo que o hóquei em patins não está tão divulgado neste país, apesar do seu já bom hóquei, como em Angola ou Moçambique? E sabendo ainda, que a RTP(I) é, de acordo com estudos divulgados pela própria, largamente visto no Brasil? Pela mesma razão, não será a RTP África vista por outros países africanos– veja-se a República da África do Sul que já tem competido em torneios realizados em Moçambique -, e como tal, um bom veículo de propaganda para uma modalidade que deseja integrar o clube, proximamente muito restrito, da Comunidade olímpica?
     A pergunta fica no ar. O serviço público – leia-se a diáspora afro-brasileira – agradece a resposta para este caso e para outros casos acontecidos (torneios pré-olímpicos de futebol e, ou, para o CAN) ou que venham a acontecer. O mais certo...
 
    Notas:
  1. “Consequência da Declaração de Luanda?” in: Jornal Lusófono, nº. 29, de 06.06.2003.
  2. “FIRS aperta federações”, in: A Bola, 04.10.2003.

©(Publicado no Jornal Lusófono, edição 10.10.2003)
 
< Anterior   Próximo >