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27 de Outubro de 2017
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2006 - Apresentação e a crise social da Euro-África PDF  | Imprimir |  E-mail
Apresentação e a crise social na Euro-África
por: Eugénio Costa Almeida©
 
    Foi minha preocupação primeira para este primeiro contacto com os leitores de São Tomé e Príncipe, em geral, e do Correio da Semana, em particular, apresentar um tema que pudesse servir de apresentação, mas sem ferir eventuais susceptibilidades; apresentar um assunto que fosse atractivo aos leitores, mas sem que o mesmo se apresentasse como um pequeno “fait diver”, mais um a que, por certo, os santomenses já estarão habituados; algo que fosse de África ou que aos africanos dissesse respeito.
    Pensei, mas acabei por me decidir abordar um dos maiores e mais problemáticos problemas da actualidade: a crise sociológica em França.
    Como será evidente não entrarei no noticiário em si, nem, tão pouco, farei considerandos sobre se as palavras do ministro do interior francês, senhor Sarkozy, foram oportunas ou não. É comummente reconhecido que não o foram; se a acidental electrocussão de dois jovens seria motivo suficiente para este descalabro que já dura há uma dúzia de dias com as consequências bem visíveis em toda a França e que promete alargar-se aos países vizinhos. Bélgica e Alemanha já começaram a sofrer os efeitos desta crise com distúrbios em algumas cidades.
    Mas também não serão só nestes países que o corolário lógico de uma continuada guetização de povos – e é nisto que se centra o problema social europeu – se irá circunscrever.
    Uma guetização religiosa, cultural, económica, linguística e, acima de tudo, segregacionista. A maioria dos jovens implicados nos distúrbios franceses é de ascendência magrebina, asiática e alguns subsaarianos. A “la banlieu” é há muito um barril de pólvora que explode periódica e sistematicamente.
    Em Portugal, por exemplo e nomeadamente a região de Lisboa, continuam a subsistir problemas destes, apesar das palavras pouco sensatas de um governante português que não via preocupações no país porque, embora não impossíveis, dificilmente acontecerão casos análogos em Portugal. Esquece-se de zonas como a Cova da Moura, ou as Marianas; ou seja existem zonas de risco que serão mais eminentes do que parecem.
    A exclusão social, o desemprego, a falta de uma nacionalidade clara – nem todos os descendentes de estrangeiros já conseguiram obter a nacionalidade portuguesa – esse é também um dos problemas da juventude, 2ª e 3ª. geração, francesa – o apontar dos sempre mesmos culpados, provoca e agudiza tensões sociais. E esse parece que tem sido o grande problema dos governantes europeus.
    Defendem uma Europa socializada, mas esquecem-se que têm procurado travar a entrada nessa mesma Europa com actos que a tornam numa super-fortaleza: são as quotas para a emigração externa cujas sequelas ainda nos recordamos todos de Mellila e Ceuta ou das tentativas de travessia nocturna do estreito de Gibraltar com inúmeros afogados. E dos desgraçados que foram escorraçados para campos de refugiados – leia-se autênticos campos e concentração – no interior do deserto marroquino do Sara. As fotos que circularam, e circulam, no espaço netiano são provas demasiado fortes para que a Europa continue a ter uma política de avestruz quanto a emigração externa.
    A defesa da imigração intra-União, a favor dos novos países integrantes não pode ser sinónimo de proscrição dos outros, daqueles que mais têm contribuído para o desenvolvimento económico da nova Europa, em particular, no sector da construção. Quem são os que mais se vêem na construção civil? Além de ucranianos e moldavos – os mais recentes – têm sido os africanos quem mais tem contribuído para esse desenvolvimento.
    Quem mais ajudou a construir os Estádios do Euro 2004, em Portugal? E quem mais sofreu com o seu fim. Qual é a taxa de desemprego dos africanos na Europa? E, já agora, dos europeus? Quem são aqueles que vêm em busca de um melhor nível de vida e saiam daqui desiludidos.
    Quando os governantes africanos chegarem à conclusão que África desenvolve-se não enviando continuadamente mão-de-obra barata e pouco capacitada tecnicamente para o exterior para, subsequentemente, receber divisas que irão cobrir os gigantescos e infindáveis défices e dívidas externas, mas incrementar a educação social e técnica dos seus povos e, por via disso, desenvolver os respectivos países, então aí teremos uma África social, económica e – porque não dizê-lo – politicamente em plano de evidência.
    A África, seja magrebina ou subsaariana, não pode continuar a ver os seus filhos no sopé da pirâmide social euro-atlântica. Já basta de esmolas como o Live8 por muito meritórias que sejam; e são-no.
    África tem de se modernizar. E para isso muita coisa terá – tem – de mudar. E isso será um assunto que espero vir, mais tarde, abordar.

    08 de Fevereiro de 2005

© Publicado no semanário santomense Correio da Semana, ed. nº 54, de 18-Fevereiro-2006, pág. 19
 
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