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4 de Janeiro de 2009
 
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2006 - Prefácio do livro "Alto Hama, crónicas (diz)traídas" de Orlando Castro | Imprimir |
Prefácio do livro "Alto Hama, crónicas (diz)traídas"
por: Eugénio Costa Almeida©
     
Prefácio incluído na obra "Alto Hama, crónicas (dis)traídas".
Uma colectânea de crónicas publicadas por Orlando Castro no site "Notícias Lusófonas".
    
Orlando Castro, jornalista e historiador angolano-português, teve a suprema ousadia de me convidar para prefaciar esta sua, tão bela, quanto interessante, colectânea de artigos publicados no principal órgão informativo lusófono da rede “net”, o Notícias Lusófonas.
Uma ousadia que só caracteriza uma personalidade como Orlando Castro.
Um jornalista que não tem nem medo das palavras que redige, nem de assumir, em plenitude do acto, aquilo que quer transmitir ainda que, nem sempre – e, diria, felizmente –, sejam bem aceites ou digeridas, nomeadamente, por aqueles a quem o verbo soa sempre incómodo e indigesto.
Um artigo não polémico, pode parecer um não artigo ou um artigo incompleto, uma amálgama de palavras que juntas formam um corpo por vezes nem sempre conexo e, não menos raras vezes, absurdamente inconsistente que, na maioria dos casos, acaba inerte no esquecimento de quem o lê.
Ora, isto é coisa que dificilmente isso acontece com os temas escritos por Orlando Castro.
E tal como os seus artigos esta colectânea tem todos os ingredientes para não passar despercebida.
Basta ver algumas das citações – oportunas nos tempos que correm – que introduzem a sua colectânea. O autor relembra a jornalista Fernanda Leitão quando esta critica a cedência dos jornalistas – serão mesmo jornalistas? – perante a mentira, a deslealdade, a inveja, o ódio pessoal – e como eu sei isso – ou à mais das evidentes e actuais situações que muitos criticam e poucos têm a coragem de apontar: a incompetência; a que me atreveria juntar, de moto-próprio, a soberba mesquinhez.
Do que conheço de Orlando Castro, é, pode ser, tudo, menos isto. É um Criador de artigos, não um produtor, ou mercador, de conteúdos; contesta os cada vez mais “yes-men” que pululam na moderna sociedade ocidentalizada muito produto-dependente de certos recheios que lhes oferecem; rejeita, liminarmente, os “capatazes” que gerem a comunicação social e aplaude, sem reservas, os chefes que assumem a notícia.
Não aceita nem reconhece o jornalismo que se alimenta, quase exclusivamente, das questionáveis reputações, dos devaneios e dos escândalos, de detritos das realizações humanas, em suma, daqueles que tornaram a arte e cultura jornalística banal, fútil, paradoxal ou doentia.
Daí que, citando a polémica obra “Mental Obesity” do antropólogo e professor de Harvard, Andrew Oitke, se possa afirmar que, embora a sociedade tenha tomado consciência dos perigos que o excesso de gordura física resultante de uma nutrição deficiente e esbanjadora pode acarretar para a Humanidade, já os abusos que esta mesma sociedade está a praticar no campo da informação e conhecimento são, e estão, a criar problemas tão maus ou mais sérios que aquela. Ou seja, todos estão mais atafulhados “de preconceitos que de proteínas”, mais intoxicados de “lugares-comuns que de hidratos de carbono”; mais viciados em “ estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos e condenações precipitadas” que compreender e reflectirem no que vêem ou lêem. Resumindo e citando ainda o professor Oitke, todos “têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada”.
Ora não é isto o que se passa com esta colectânea de Orlando Castro. Ela transmite-nos os 3P’s necessários para uma correcta e efectiva compreensão da moderna sociedade de informação que quase abafa esta nossa actual confraria de consumo: pensar, pesar e ponderar.
Uma obra onde se analisa alguns casos de Portugal, Angola – a sua mui amada Angola para raiva de uns quantos –, a Lusofonia e toda a vertente que a envolve, como a CPLP, a africanidade e alguns sectores não-africanos, e o Jornalismo; aquele jornalismo que Orlando Castro continua, teimosa e combatentemente, a querer que não seja uma prima do mestre-de-obras mas uma Obra-prima; daquele Jornalismo onde se fale da árvore, mas nunca se esqueça da floresta; de um Jornalismo que não acoite o obscurantismo, a servilidade e a bajulação.
Ou seja, de um Jornalismo vivo, prenhe e vibrante, mas justo e frontal. Um jornalismo ao serviço da Verdade, da Democracia e da Liberdade.

Eugénio Costa Almeida
Texto inserido em:25/09/2006