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2007 - A quem serve a RTP-África? | Imprimir |

A quem serve a RTP-África?

RTP passa (bem) ao lado das realidades lusófonas
por: Eugénio Costa Almeida©

     

Periodicamente vou me batendo por que a Diáspora afro-lusófona tenha uma televisão onde possa se rever e matar saudades dos seus países.

Ainda o recente Afrobasquete, em Angola – com a presença de 3 países dos PALOP, duas das quais foram só a campeã africana, Angola, e medalha de bronze, Cabo Verde –, e a não cobertura pela RTP-África do evento mostram quanto a televisão portuguesa e os seus directores se estão nas tintas para o público alvo a que se destinaria a RTP-África.

Muitas, e não poucas vezes, esses responsáveis esquecem-se que o grupo RTP tem um canal exclusivo para a comunidade portuguesa, a RTP-Internacional. Por isso, não se entende que mantenham programas que só interessam à comunidade lusitana, nomeadamente, anúncios para um público-alvo situado na região franco-belga, como aconteceu recentemente. Não se entende este ostracismo que os responsáveis lusitanos praticam com a comunidade afro-lusófona.

Por isso não surpreende que os programas e os canais brasileiros introduzam mais facilmente no espaço televisivo da África lusófona. Os seus conteúdos, apesar de brasileiros, são sempre mais próximos da realidade africana. Há uns anos, em Luanda, os Ministros da tutela da Comunicação Social afirmaram que era necessário um maior e mais profícuo relacionamento entre os meios comunicacionais dos países de expressão lusófona, nomeadamente, entre Portugal e os PALOP.Escrevi, na altura, um artigo sobre o assunto, no extinto Jornal Lusófono (ed. 29 de 6-Jun-2003), sob o título “Consequências da Declaração de Luanda?” onde o assunto era analisado e esperava-se que o que, entretanto acontecia na RTP-África sob resultado dessa Conferência e continuasse a manter.

Foi ilusão com rápido esmorecimento como se comprovou quase de imediato. Não foi preciso esperar muito. No Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins, realizado em Portugal entre Setembro e Outubro de 2003, nenhum dos encontros onde entravam as selecções afro-lusófonas (Angola e Moçambique) tiveram qualquer transmissão para Portugal (e, todavia, os jogos de Angola foram transmitidos no País pela TPA, ou seja, tinham sinal) através do canal por cabo que transmite a RTP-África. Nem um! E do Brasil, que também entrava nesse Campeonato, só o que opôs a Portugal nos quartos-final. Mas os jogos dos lusitanos foram todos – repito, todos – transmitidos pelos três canais do grupo RTP (canal1, Internacional e África).

E, por certo, quem se lembra do último torneio de apuramento para o Mundial da Alemanha, em Futebol, se recordará da campanha, que, indirectamente patrocinei, dado ter sido o primeiro a clamá-lo nos blogues, a favor da transmissão para Portugal do jogo entre Angola e Ruanda que poderia – como o fez – colocar os palancas no Mundial. Só na véspera e só muito a custo, os responsáveis acabaram por aceitar proceder à dita transmissão televisiva.

E quantos acontecimentos ocorrem em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe de interesse para os seus cidadãos no exterior e não são – e não poucas vezes – nem objecto de reportagem, mesmo que curta, na RTP-África?

Se o grupo RTP e o Estado português consideram que a RTP-África só deve transmitir o que bem entende sem ter em consideração os interesses daqueles que, em teoria, estão vocacionados, ou seja, a Diáspora africana – e é altura de Portugal não se esquecer que não vivem só afro-lusófonos em terras lusitanas, mas também de outras nacionalidades que gostariam de saber coisas dos seus países – então será melhor o grupo RTP acabar de vez com o canal RTP-África. para isso já têm o canal "Internacional".

Será que alguma vez os responsáveis da RTP viram o canal francófono da TV5 que se dirige a todos os falantes francês em todo o Mundo? Não se vê lá, salvo os noticiários da França e Bélgica, só informação franco-belga. Também lá vemos notícias e reportagens africanas, canadianas, e de outras comunidades francófonas. E não me recordo de ver por lá anúncios. Porquê? Porque, apesar de transmitido de França, foi resultado de um acordo não leonino entre França e as restantes televisões francófonas.

Mais tarde defendi um projecto que, salvo erro, foi aventado em Moçambique, de uma “Afrovisão” que aglutinasse todas as televisões africanas onde pudessem chegar mais longe.E será, também, altura dos PALOP impulsionarem as transmissões via Internet das suas emissões televisivas. Hoje, em dia, em Portugal, já há quase tantos computadores como televisões. Então o senhor primeiro-ministro português não anda a distribuir portáteis a preços irrisórios pelas escolas e pelos seus alunos e com ligação à rede através do sistema ADSL?

É que, honestamente, estou farto de esperar por notícias do meu País, no pequeno espaço de cerca de meia-hora no programa Repórter e, nem sempre, actual.

Estou farto de esperar para ver programas feitos nos PALOP, alguns de muito boa qualidade e sem apoio da RTP, com atrasos significativos ou quase requentados.Não será altura dos Ministros da Comunicação Social da CPLP se voltarem a juntar e, ou a CPLP – leia-se o Brasil, porque se esperamos alguma coisa de Portugal, é melhor esperar bem sentado – criar um canal televisivo com real impacto da e na sociedade de língua portuguesa.

Também não é verdade que em 2008 a língua vai estar mais “igual” devido ao acordo ortográfico?

©Publicado no jornal moçambicano O Observador, edição nº 061, de 18 de Julho de 2007 com o sub-título “A RTP passa (bem) ao lado das realidades lusófonas” (edição em PDF por assinatura)

 
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