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2007 - Quando a voz do sangue é mais forte que as armas | Imprimir |

Quando a voz do sangue é mais forte que as armas

(4 de Outubro, Dia da Paz)
por: Eugénio Costa Almeida©

 

Quando iniciei a análise que se segue fi-lo no intuito de lembrar os leitores para um facto que muitos de vós e de nós vai se esquecendo ou fazendo por se esquecer. A protecção animal e, com isso, a sobrevivência de todos nós e da Terra.

Relembrava como tantos e tantos animais estão a ser dizimados esquecendo-nos que além de criaturas de Deus são, também eles, seres vivos que, por alguma razão, estão na mesma Terra que nós e com um sentido filosófico da vida.

Uns são para nos alimentar, outros para nos vestir, outros para nos embelezar a vida, outros para nos proteger de outros que nos infernizam a vida e a saúde e outros, por fim, para alimentarem aqueles que nos alimentam ou nos protegem. Um ciclo de vida que se repete, e se tem repetido, ao longos dos milénios desde que existe fauna e flora.

E como nós temos desprezado e delapidado a fauna mundial. Anualmente mais de 15000 espécies desaparecem ou entram em colapso, leia-se, em extinção.

Daí que, por exemplo, o Programa das Nações Unidas para a defesa do Ambiente/Convenção sobre espécies migratórias tenha decretado o ano de 2007 como o ano internacional dos golfinhos e mantenha a proibição de caça livre aos cetáceos.

Pelas mesmas razões algumas espécies africanas estão extintas ou em vias de extinção por via das inúmeras guerras pelo que o continente passou no dealbar do século passado ao ponto de algumas reservas nacionais e internacionais terem ficado só com o título porque de animais… estamos conversados e houve necessidade de pedir ofertas a outras reservas para o repovoamento faunístico.

Foram os casos do Parque Nacional da Kissama, em Angola, e da Gorongosa, em Moçambique.

E ao recordar a Gorongosa e de como quase foi delapidado da sua maior riqueza, os animais, relembrei como Moçambique quase se finou devido a uma guerra civil, estúpida como todas as que são civis – é sinónimo que os irmãos não se entendem, principalmente porque não dialogam e não põem os seus interesses pessoais sob o valor primeiro: o da comunidade –, entre a Frelimo e a Renamo.

E foi por causa de Gorongosa que me recordei que hoje, Dia Mundial do Animal – a similitude é mera coincidência (sê-lo-á?) –, se comemora também o 15º aniversário do Acordo Geral de Paz, de Santo Egídio, rubricado entre a Frelimo e a Renamo.

Quando os irmãos são levados a falar, sem sofismas nem subalternidades, verifica-se sempre que a voz do sangue é mais forte que a voz das armas. E foi isso que aconteceu e, como as vicissitudes naturais de quem esteve desavindo e de quem manteve um certo poder contra quem deseja também ascender a este, se tem mantido.

Pelo menos já ocorreram 3 eleições legislativas e presidenciais. Foram todas honestas. Quero crer que sim. Mas também acredito que terá havido quem fosse mais honesto, na hora da recolha de votos – dos seus votos – que outros.

Houve prejudicados? Provavelmente que sim! Numas eleições por muito livres e democráticas que sejam e na distribuição de pelouros que as eleições sempre provocam há sempre quem fique mais beneficiado que outros. Esse é o interesse maior de umas eleições. A alternância do poder.

Mas para que ele haja é necessário que deixe de haver uns mais honestos que outros – como diria George Orwell, todos são iguais (e honestos) só que há uns mais iguais (e honestos) que outros – e todos passem a ter os mesmos direitos. Os mesmos direitos ao ensino, ao emprego, à riqueza do País, a ordenados justos e equilibrados, aos mesmos direitos e deveres políticos e sociais, a igual protecção do bem público, à mesma justiça. Ou seja, a um real equilíbrio do Poder.Penso que não é pedir muito aos irmãos que se dizem, e acredito que o são, honestos, amigos e defensores da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

Quanto mais não seja e se dúvidas houver, basta sempre voltar ao início deste artigo. Aos animais e como eles muitas vezes nos ensinam na sua delicadeza de trato e de sensibilidade social a melhor coexistência de grupo. Matam para comer, podem dirimir para aceder ao poder – não esquecer que nos animais, em regra, o poder não transita democraticamente – mas não matam pelo e por prazer.

Que Moçambique continue a trilhar o delicado e frutuoso caminho da Paz para continuar a celebrar o Dia Mundial do Animal visitando o seu magnífico Parque Nacional da Gorongosa.

 

   ©Publicado no jornal moçambicano O Observador, edição nº 071 (edição extra), de 03 de Outubro de 2007 (edição em PDF por assinatura)
 
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