| 2007 - Fartar garimpagem | | Imprimir | |
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Fartar garimpagem por: Eugénio Costa Almeida©
Por cada 100 dólares doados, 80 retornam ao país doador por via dos vencimentos dos seus técnicos colocados, ao abrigo da cooperação, nos países receptores; ou seja, 80% dos fundos colocados à disposição dos receptores regressam, inteirinho, à procedência. Isto foi proferido pelo deputado angolano Lopo de Nascimento, antigo primeiro ministro e governador da província da Huíla e por alguns, em tempos, considerado como um dos mais previsíveis delfins de Eduardo dos Santos para concorrer às presidenciais angolanas, na cidade do Porto, onde participou numa conferência "Europa-África: uma estratégia comum?" levada a efeito pela Fundação Portugal-África; uma tese onde mostra o quanto tem de “falso” algumas – e não poucas – doações internacionais. Relembremos a “oferta” japonesa por troca da liberalização santomense da captura de cetáceos... Mas Lopo do Nascimento foi mais longe ao afirmar, também, que África está, nesta altura, a ser alvo dos novos garimpeiros, a Índia e a China. Se antes foram as potências colonizadoras, primeiro, e as duas superpotências (EUA e Rússia), depois, quem exploravam os ricos solos e subsolos e mares africanos, sendo que as primeiras ao abrigo do seu interno desenvolvimento industrial, enquanto as superpotências operavam sob a capa da protecção e internacionalização solidária, agora são os chineses e os indianos os centrais “vorageiros” das fundamentais riquezas africanas. O deputado angolano, relembrando a actual força chinesa em África – já está presente em cerca de 49 países africanos com “poder” estratégico e económico, onde operam cerca de 700 empresas de impacto chave –, alertou para o facto da Europa e dos EUA estarem a perder a sua influência no continente africano. Algo que por diversas vezes eu, como outros analistas, já temos alertado. Algo que, não poucas vezes, eu, como outros analistas já vínhamos a chamar a atenção, nomeadamente, para o que se passa nos países afro-lusófonos com particular destaque para Angola e Moçambique e, agora, também para Cabo Verde que irá passar a chefiar uma das regiões-chaves da China em África. Os hidrocarbonetos são os principais produtos que chineses e indianos mais buscam em África. Mas também são as madeiras, e alguns minérios necessários para o florescente desenvolvimento dos dois colossos asiáticos. Relembremos que tanto a China como a Índia são, actualmente, duas das maiores e mais vigorosas economias do Mundo. E se há culpas dos europeus e aos norte-americanos por não saberem como lidar com África sem receio do neocolonialismo e do imperialismo incôngruo, também uma parte significativa do erro pertence aos africanos por não saberem diversificar as suas fontes de apoio e investimento. E, não poucas vezes, este erro deve-se a factores endógenos, como corrupção e incúria, luvas e servilismo. Durante a década de 60/70 do século passado África foi palco dos indirectos confrontos – mais armados, quase sempre, que políticos – entre as duas superpotências. Os próximos anos, talvez dentro de 10 a 15 anos África vai ser, de novo, palco desse confronto. Já o está a ser a nível económico e, em menor escala mas nem por isso menos incisivo, político. A dúvida estará quem defrontará a China, para qual recordo a sua a política de paciência (a que tenho chamado a “estratégia do mahjong”, já aqui analisada numa edição anterior,) chinesa; passo a passo, até ao domínio final do Rimland. Se os EUA e a União Europeia – Sarkozy parece querer voltar ao esplendor francês de potência directora e de referência em África – ou algum outro país. Relembro que o Brasil se posiciona como uma das futuras potências deste século a que não se deve esquecer a Índia. Os EUA e a Europa perderam o comboio no Darfur e em Myanmar (Birmânia). Só a “boa-vontade” chinesa, junto dos dirigentes sudaneses e birmaneses é que permitiu que a ONU e a União Africana pudessem ir para o Darfur, e já com as consequências que se verificam – o aprisionamento e morte de soldados da UA por ultra-rebeldes, segundo uns, por militares sudaneses, segundo outros – ou que o enviado da ONU pudesse estar em Rangoun e falar com a activista e Nobel da Paz birmanesa Aung San Suu Kyi ou se deslocar à nova capital, Naypyidaw, para conversações com o discreto e pouco visto líder da junta militar que domina Myanmar há 40 anos. Também é a China que vai permitindo que São Tomé e Príncipe mantenha as suas relações privilegiadas com Taiwan. No momento que se confirmar que os hidrocarbonetos santomenses são viáveis e lucrativos e necessários para a economia chinesa, teremos a China Popular a mudar a bandeira da embaixada nacionalista na cidade de São Tomé. ©Publicado no semanário santomense Correio da Semana, ed. nº. 137, de 27-Outubro-2007 |
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