Lusofonia ou Língua portuguesa (Portugalofonia?) por: Eugénio Costa Almeida©
O espaço que ora inicio no “Portugal em Linha” é para permitir um debate franco e directo com os leitores sem que com isso as pessoas deixem de objectivar as suas ideias ou as suas concepções.
Poderei – e provavelmente, algumas vezes sê-lo-ei, – ser obrigado a apresentar razões com que pessoalmente não reconheça como minhas mas que são genéricas a um grupo e com isso obrigar ao debate. Razão porque vou iniciar o tema logo com esta questão melindrosa, nomeadamente para brasileiros e angolanos. Porquê dizer que somos Lusófonos e não uma outra coisa qualquer, dado que estamos a restringir-nos à nossa qualidade de falantes de Português? Está tacitamente aceite entre os países e regiões falantes do português reconhecer como pertencermos à Lusofonia (Luso, de lusitano; relativo ao espaço Lusófono, ou Lusitânia). Desde logo aqui se levanta uma questão. Porquê espaço Lusófono e não espaço Portugalófono ou espaço Ibérico? E só – SÓ – um País tem o Português como língua única oficial. Se nos debruçarmos para a forma como os nossos outros parceiros linguísticos de fala diferente se reconhecem, verificamos que, de uma maneira geral, exceptuando, mais por razões político-históricas, os castelhanos, têm como base a matriz nacional genérica e não histórica. Os ingleses são anglófonos (segundo a raiz francesa “Angleterre”) ou “english language”; o francês reconhece-se como francófonos (de raiz França). Já o castelhano, por evidentes razões comunitárias internas e tacitamente aceite pelas antigas colónias e devido à influência norte-americana, é reconhecido como espanhol ou hispânicos – dizer castelhano ou espanhol é um pouco difícil para a proverbial deficiente forma de dobrar a língua dos norte-americanos –, devido em parte, à região Hispânia como era reconhecida, em tempos, a Península Ibérica. Ora considerar a língua portuguesa, que tem matrizes diferentes conforme as regiões onde é falada como Lusofonia, é um pouco absurdo. O português, tal como o francês, o espanhol, o italiano ou o romeno, tem como matriz fonética o latim. A expressão “Luso” deriva não de uma raiz linguística mas de um povo – Lusitanos –, em tempos habitante da Hispânia e que se estendeu entre a Galiza/Astúrias e o Mondego, num primeiro momento, e entre o Mondego e parte da Andaluzia, numa segunda fase. Por alguma razão os galegos, actualmente mais por razões políticas que históricas ou linguísticas, se reconhecem mais “lusófonos” que hispânicos. No início referi que considerarmos, como habitualmente nos consideramos, “Lusófonos” é admitir uma restrição à nossa qualidade de falantes de português. É habitual ver nos meus blogues, e a maioria provenientes do espaço brasileiro e latino-americano, a busca pela “língua brasileira” e não pela “língua portuguesa” e, muito menos, pela “lusofonia”. Recordo que alguns brasileiros afirmam mesmo que a língua brasileira tem a sua raiz no Decreto 25, de 16 de Setembro de 1951, que lavrou pela então Câmara Municipal do antigo Distrito Federal, uma determinação no sentido de “que os livros didáticos só sejam adotados no ensino municipal quando denominarem de Brasileira a língua falada no Brasil (Diário Oficial, 17-09-1935, Atos do Poder Legislativo da Prefeitura do Distrito Federal)”. O insigne ensaísta e académico Afrânio Coutinho relembrou isso mesmo num artigo publicado em 1983. Defendem os brasileiros que a Filologia Brasileira é única e um facto insofismável com uma diferenciação muito própria, principalmente a partir do Romantismo onde houve um claro cisma entre as línguas “brasileira” e “portuguesa”. Também os angolanos, apesar de fonética e linguisticamente se aproximarem mais do “falar português” da “Lusitânia”não vêem com bons olhos que se fale em “Lusofonia” em vez de “Português”. Um angolano diz que fala – e defende-o claramente como língua oficial – “Português” e não uma outra qualquer língua. Pergunte-se a um angolano o que é a CPLP ou a Lusofonia? Académicos, políticos ou próximos, chacotam; o povo, desconhece. E se aliarmos a esse facto o pouco que a CPLP e o Instituto de Língua Portuguesa – não se fala em Lusofonia – tem feito junto das populações e das regiões falantes de Português melhor se entende a dificuldade em aceitar a expressão “Lusofonia”. Em Cabo Verde, o português surge como segunda língua; na Guiné-Bissau, aparece como uma língua residual, em alguns casos mesmo atrás – bem atrás – do francês; em Moçambique só uns residuais 10 a 15% falam o Português quase tanto ou menos dos que falam, e bem, o inglês; em Timor-Leste os oficiais da Polícia Nacional têm de ir aprender o seu ofício para a Indonésia porque a maioria – ou a quase totalidade – não fala o português mas o bahasa – tal como o fez, em tempos e em lugar oficial, o presidente timorense –; em São Tomé e Príncipe, tal como em Angola, o português surge como uma língua oficial clara e de união entre os povos que formam o enorme mosaico étnico-linguístico dos dois países, que se sobrepôs às línguas maternas, sem que estas, naturalmente, tenham morrido. Afirmei no início que só um Pais tem o Português como única língua oficial. E mesmo esse país não o aceita bem como sendo a sua língua. É o Brasil, pelas razões já anteriormente referidas. Também Portugal, tem duas línguas oficiais: o Português e o Mirandês. Daí que se pergunte, pertinentemente, porquê a Lusofonia? A reflexão está lançada! ©Publicado no portal da Lusofonia “Portugal em Linha”, na rubrica de Debate “Lusofonia”, em 2 de Abril de 2008 |