Parece uma Opereta sem fim; afinal atracou ou não? por: Eugénio Costa Almeida©
Segundo alguma informação de Luanda o navio chinês An Yue Jiang (ou Na Yue Jiang) que transportaria uns míseros seis contentores com “materiais legais” – várias toneladas de armas e munições – vendidas do Governo chinês a Robert Mugabe como prendas que este iria oferecer ao seu estimado Povo, já atracou e descarregou a mercadoria que era destinada a Angola – de que quer os dirigentes chineses, quer as autoridades angolanas pareciam desconhecer a sua existência, até há poucos dias atrás – e não terá descarregado, por não ter sido autorizado superiormente, a descarga dos contentores.
Isto é o oficialmente… oficial.
O oficioso, o que corre nos corredores e nas ruas de Luanda, já mais parece ser uma Opereta – para quem não saiba é, de forma simples, uma Ópera com música – em vários actos e de contornos rocambolescos e incompreensíveis.
Segundo o jornal O Apostolado, citado pelo seu portal, o “mistério continua completo sobre o paradeiro exacto do navio chinês carregado de armas para o Zimbabwe, cinco dias após o governo angolano ter autorizado que acostasse cá”.
Parece estar em jogo uma providência cautelar junto do Tribunal Marítimo angolano interposta por duas entidades angolanas, o Conselho de Coordenação dos Direitos Humanos (CCDH), através do seu advogado David Mendes, e do Sindicato dos Marítimos de Angola (SIMA), para impedir a descarga do material bélico.
Todavia o que parece ter acontecido foi um dos actos da opereta: o navio já terá descarregado e zarpado sem que fosse possível qualquer atitude jurídica, conforme o Notícias Lusófonas referiu em tempo oportuno.
Só que são meras conjecturas porque, de acordo com o portal d’O Apostolado as autoridades portuárias luandenses recusam as tentativas dos jornalistas em desvendar o mistério.
Segundo aquele órgão independente angolano, para a Direcção-geral do Porto de Luanda, ou para as Capitania, Alfândega, Polícia Fiscal e Polícia Económica, nenhum responsável parece estar disponível para satisfazer a natural curiosidade da imprensa nacional.
Mas se há ou houve ou não armas no navio chinês é um caso que ainda está por esclarecer.
Segundo o blogue “Casa de Luanda” o navio chinês traria, de acordo com uma nota da autoridade portuária, a mesma que dias antes dizia que o navio não estava autorizado a entrar em Luanda por não ter materiais para Angola, ““alguns containeres com material de construção destinados a Angola”.
Mas o autor do blogue vai mais longe ao citar trabalhadores do porto de Luanda que terão dito que os 6 contentores teriam sido já descarregados – o que reforça a acusação de David Mendes, citada aqui no Notícias Lusófonas – sem saberem, contudo, o que lá vinha. Segundo eles o material descarregado teria sido levado directamente o Gabinete de Reconstrução Nacional, um órgão vinculado e supervisionado pelo Chefe à Casa Militar da Presidência da República, que entretanto parece já ter desmentido tal acto.
Para que a Opereta não ficasse somente por dois ou três actos burlescos, um ouvinte, que se identificou como marítimo com 32 anos de experiência portuária, em ligação para o programa “Telefone em brasas” da Rádio Ecclésia-Emissora Católica de Angola, no fórum por eles organizado, terá dito “nunca ter visto uma carga mista de armas e mercadorias civis no mesmo navio”, pondo assim em causa a tese transmitida pelo comunicado do Governo da passada semana.
Ora isto levanta volta a trazer a colação a questão que já anteriormente coloquei. Será que não houve transbordo do material em pleno alto-mar?
Recordemos uma informação da CCDH que afirmou e sustentou que cerca de 30 camiões militares saíram do porto de Luanda com contentores mas que não seriam do An Yue Jiang. Mas também não afirmam que os mesmos não contivessem material militar…
E se com isto já vamos em 5 ou 6 actos na Opereta – a música é que se mantém a mesma, muda ou inaudível – em vez de ser o Governo a vir a público esclarecer o que se passa, como seria natural, principalmente no termo de um Conselho de Ministros, é um porta-voz do maior Partido governamental que afirma, segundo o portal O Apostolado, “que o navio nem atracou ainda em Luanda” e que se “<>”. Simples, directo e… óbvio! Se o Governo é o MPLA e o MPLA é o Governo, logo, é o MPLA que fala!
E vamos nós para eleições em Setembro – será? é que ainda não há nada oficial – que se esperam livres e justas…
Como relembra, e bem, o Casa de Luanda, a China, desde o final de crise angolana, em 2002, já terá deixado nos cofres angolanos – quais, isso cabe aos Tribunais nacionais esclarecer – cerca de “5 bilhões de dólares em empréstimos para a reconstrução” do País; é, actualmente, um dos maiores importadores de petróleo angolano – já ultrapassámos a Arábia Saudita como maior fornecedor de crude aos chineses –; e o “comércio bilateral entre os nossos dois países ultrapassa os 8 bilhões de dólares por ano”.
As boas amizades fazem pagar caro e nas alturas certas…
2/Maio/2008 ©Publicado no Notícias Lusófonas, na rubrica "Colunistas" em 3.Maio.2008, (http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=20997&catogory=ECAlmeida) |