Os mais e os menos em 2009 (em Angola) por: Eugénio Costa Almeida©
Como habitualmente os órgãos de comunicação social fazem uma análise ao ano que finda e ponderam quem, na sua concepção, foram as figuras que, como maior ou menos relevo, evidenciaram, positiva ou negativamente, ao longo do ano em análise. O Semanário Angolense (SA) que também não fugiu a essa escalpelização vai permitir-nos utilizá-lo, em parte, para as nossas meditações de fim-de-ano.
Para o jornal angolano SA, a grande figura de 2009 terá sido o professor, economista e analista político Justino Pinto de Andrade, um dos obreiros da extinta FpD e quem mais terá contribuído, juntamente com o seu colega Nelson “Bonavena” Pestana, para as múltiplas denúncias sociais quer nas eleições de 2008 quer no período que continuou durante todo o presente ano.
Claramente uma boa e acertada escolha. Até porque, como escreve o SA, “se há cidadãos que estejam a contribuir para que Angola seja efectivamente um país bom para se viver, Justino Pinto de Andrade, a seu modo, é certamente um deles.”
Todavia não podemos concordar com todos aqueles que o SA aponta como vencedores. Se Isabel dos Santos é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores figuras angolanas, pelo menos a nível económico, é quem mais tem contribuído para suserar o Estado e a economia portuguesa a Angola – como alguém escreveu e muito bem, Isabel dos Santos é a gestora mais empreendedora e mais forte da economia portuguesa – já não concordamos em colocar Eduardo dos Santos, o presidente de Angola em exercício, como uma figura vencedora de 2009.
Eduardo dos Santos poderia ter sido, de facto, talvez a grande figura política do ano se tivesse cumprido com as suas promessas eleitorais, nomeadamente minorar – acabar em tão pouco tempo é sempre difícil para não dizer impossível – a corrupção no País, convocar as eleições para este ano como era previsível, e aceitar que o seu tempo de presidenciável credível já terá terminado, devendo dar lugar a outros e salvaguardar-se como uma espécie de “reserva moral da Nação” face a tantos e tão indistintos tubarões que gravitam subservientemente à procura de mais-valias pessoais.
Não o fez e, mais grave, admitiu qur não só deverá ir a eleições presidenciais como deixou implícitas que, as mesmas caso seja aprovada a matriz constitucional apresentada pelo MPLA, só haverá eleições em 2012 juntamente com as Legislativas desse ano.
Daí que Eduardo dos Santos foi uma figura que não soube resguardar-se e, por esse facto, acabou entre os vencidos do ano.
Mas há outros angolanos que não podem deixar de ser considerados como os grandes vencedores de 2009.
Destes destacamos cinco personalidades, embora por razões diferentes:
Todos os que se assumiram como uma tendência dentro do MPLA, apesar dos seus nomes não terem surgido nos respectivos escaparates partidários, dando assim mostras de uma maior democraticidade neste partido ainda que, na verdade, acabaram por ser só uns meio-vencedores dando maior imagem ao seu partido;
O professor e analista Mário Pinto de Andrade pelo seu papel nas análises políticas que durante a maior parte do ano levou a efeito quer na TV quer na Rádio mostrando que as ideias não têm de ser sempre monocórdicas. Também o SA o considera um dos vencedores do ano embora por razões diferentes e com as quais não partilhamos de todo, mas que respeitamos;
Outro dos vencedores e pela imagem que conseguiu transmitir externamente do País, foi o embaixador Assunção dos Anjos, Ministro das Relações Exteriores. Por um lado conseguiu fazer crer à Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, aquilo que esta desejava acreditar ser possível: as eleições presidenciais; por outro teve o condão de conseguir trazer para Angola as comemorações do Dia de África, acto a que tivémos, por acaso e felizmente, a honra de assistir.
O antigo líder governamental Marcolino Moco pela sua frontalidade e desprendimento das cúpulas partidárias sem, no entanto, nunca deixar de se assumir uma personalidade de base do seu partido.
Por fim, reconhecer a capacidade de Angola e dos seus dirigentes em cumprirem com os prazos relativos aos estádios, infra-estruturas hoteleiras, rodoviárias e aeroportuárias (falharam as ferroviárias) devido ao CAN2010.
Entre as desilusões destacamos, entre outros factos, a incapacidade de Angola em estar presente no Mundial de Futebol do próximo ano, na África do Sul. E aqui toda a culpa deve ser imputada à FAF que não soube gerir os diferentes contenciosos pós-Mundial de 2006 e a não salvaguarda de uma equipa técnica que mostrasse que era ela que fazia a selecção e não pessoas ou interesses externos. Quando viu isso já só pôde preparar o CAN2010 que vamos organizar já em Janeiro próximo.
Mas não foi só a selecção que desiludiu. Também a incapacidade do Governo em cumprir com os desejos de Eduardo dos Santos, ou seja, em acabar com a corrupção e os desvios financeiros, alguns dos quais, o PGR diz já terem sido recuperados; o não cumprimento de algumas das linhas programáticas governamentais mais imediatas como sejam o saneamento básico mínimo, a distribuição de luz e água na província e na cidade de Luanda; os “despejamentos” populacionais sem critérios claros e objectivos salvo os de servir interesses imobiliários pouco satisfatórios; e por esse facto os menos favorecidos continuam a aguardar pelas casas das cerca de um milhão que deveriam ser criadas até ao final do mandato.
E por falar em desilusões, não podemos deixar de lamentar a queda das duas equipas da província de Benguela do Girabola, uma das quais, o 1º de Maio, já foi um dos campeões nacionais. A outra foi o Académico do Lobito. Talvez que esta passagem pela Segundona e o facto de terem novo Estádio lhes mostre que uma equipa faz-se não só nas bases como nas cúpulas administrativas…
E se o Governo desiludiu não se pode dizer que na Assembleia Nacional também não hajam vencidos. Quando os deputados aceitam as directrizes que lhes apresentam sem questionarem com clareza as razões dos mesmas é evidente que algo precisa de mudar. Desde logo admitirem quase de olhos fechados aquilo que o partido lhes impõe como, por exemplo, uma matriz constitucional onde o debate que deveria ser entre três propostas está quase subjacente a uma única. E para isso muito também contribui a comunicação social estatizada que só fala numa das propostas quando questiona a população.
Finalmente a cada vez maior perda de influência da UNITA no seio partidário nacional. O SA fala mesmo que o líder do Galo Negro, Isaías Samakuva, deixou de cantar de galo e passou a cantar de cisne, ao mesmo tempo que estará “«acantonado» e toma as grandes decisões do partido apoiando-se em apenas três ou quatros figuras da direcção”.
Recordemos como Samakuva esteve de passagem pela Europa e os seus simpatizantes em Portugal só souberam da sua passagem à posteriori e quase num “boca-a-boca” dando mostras de falta de organização que não é compreensível tendo em vista um futuro combate pelas presidenciais e pelas próximas legislativas. E já se viu que é fácil perder deputados e muito difícil recuperar prestígio; ainda mais quando hostilizam quem mais os tem apoiado…
Esperamos que no final de 2010 possamos trocar alguns destes factos e relevar ainda mais outros. Até lá um Bom Ano para todos os leitores do Noticias Lusófonas, e que Angola possa se afirmar, ainda mais e com maior credibilidade, na cena internacional e africana, em geral, e centro-austral, em particular. 31.Dez.2009 ©Publicado no Notícias Lusófonas, na rubrica "Manchete", em 21.Dezembro.2009, (http://www.noticiaslusofonas.com/view.php?load=arcview&article=25018&catogory=Manchete) (igualmente citado e retranscrito no portal Zwela Angola - http://www.elcalmeida.net/administrator/index2.php?option=com_content§ionid=10&task=edit&hidemainmenu=1&id=573) |