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12 de Fevereiro de 2019
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2003 - O "Putsch" de STP e a emergência de estados directores PDF  | Imprimir |  E-mail
O PUTSCH DE STP E A EMERGÊNCIA DE ESTADOS-DIRECTORES
por: Eugénio Costa Almeida©

     O putsch (intentona) de 16 de Julho, ocorrido na República Democrática de São Tomé e Príncipe, veio pôr em evidência, um facto já previsto por alguns analistas e estrategos internacionais. O poder da influência política e económica – também militar – de Angola e Nigéria; ou seja, a emergência de dois grandes Estados-Directores na zona.
     Numa primeira análise, parece haver aqui uma incongruência face às circunstâncias que levaram à criação da União Africana. Estados equalitários e harmonizados perante todos e entre si, sem interferirem nas políticas internas de cada Estado mas, e no entanto, procurando que a legalidade constitucional não seja, em nenhum caso e em qualquer circunstância, questionada.
     Só que os interesses dos Estados não se compadecem com as vontades dos grupos. Daí que, em África, se despontem três a quatro Estados com tendências proto-hegemónicas ou protectorizantes: África do Sul, Angola, Líbia e Nigéria; cada um à sua maneira.
     E foi o que se viu em São Tomé e Príncipe. De uma lado, a Nigéria a apresentar-se perante a comunidade internacional, em geral, e africana, em particular, como o paladino da defesa constitucional santomense, protegendo o Presidente Fradique de Menezes e, embora não claramente, repudiando a intentona; do outro a SADC e os PALOP liderados, inequivocamente, por Angola, e que, com o apoio claro dos EUA – cujos interesses económico-militares começam a emergir (não esquecer o petróleo e a perspectiva de bases militares em STP), – e de Portugal – onde os serviços de informação parecem, uma vez mais, terem falhado na prevenção da intentona –, surgiram como os legalistas. Por sua vez, a África do Sul, através da defesa dos militares do grupo Búfalo – a maioria de ascendência angolana –, moveu-se discreta e delicadamente, nesta intricada teia político-militar – e como se viu conseguiu os seus intentos, ou seja, conseguiu que os militares dos Búfalos passassem a deter alguns direitos constitucionais.
     Realmente se no fim da intentona, o presidente nigeriano surgiu no aeroporto santomense ao lado do presidente Menezes, é igualmente verdade que foram as reuniões havidas entre os líderes da intentona e os representantes do triunvirato Angola/EUA/Portugal, aquelas que melhor e mais rapidamente produziram a restituição da legalidade constitucional ao país.
    Ou seja, África começa a ver emergir Estados com capacidade de projectarem políticas a grande distâncias. No passado, a África do Sul, foi um caso paradigmático (todavia estávamos perante um sistema internacional diferente e uma política internacional bipolar e dicotómica). Actualmente, o sistema parece estar unipolarizado em torno dos EUA (embora me pareça não ser bem assim, i.é., considero que caminhamos, a grande velocidade, para um sistema tripolar constituído pelos EUA, por um Sistema Internacional de “more peace and no war, mas muito comércio” e por um Terrorismo fanático e apátrida). E nestes sistemas onde cabem os novos Estados-Directores que emergem em África?
     As muitas linhas de resposta que esta pergunta nos levaria transporta-nos para uma outra análise a efectuar numa outra oportun1dade.

©(Publicado no Jornal Lusófono, ed. 35, de 29.Ago.2003)
 
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