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19 de Setembro de 2018
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2006 - A lição dos santomenses PDF  | Imprimir |  E-mail
A lição dos santomenses
por: Eugénio Costa Almeida©

    É  “claro que dos nossos irmãos angolanos nós não temos nada a aprender porque eles têm um grande deficit de democracia. Até hoje só realizaram uma eleição. Isto quer dizer que em matéria de democracia, eles têm que aprender com os pequenos como nós”.
    Estas palavras dardejadas à delegação angolana presente terão sido proferidas por Fradique de Menezes na tomada de posse para o segundo mandato presidencial e nela encerram tudo o que os santomenses pensaram do apoio directo externo a um dos candidatos presidenciais.
    Infelizmente Angola – e, mais concretamente, alguns dos seus edis – ainda não compreendeu que não está em condições de dar lições de moral a terceiros sobre actos eleitorais quando vem, sistematicamente, protelando as mesmas no seu próprio país.
    Daí que esta certeira e incisiva farpa de Fradique de Menezes, embora pouco diplomática e inoportuna, no tempo – não esqueçamos que o presidente recém-reeleito é psicólogo –, dada a importância política e estratégica que Angola tem para São Tomé e Príncipe, também não deixa de mostrar aos angolanos que apesar do poder político – e militar – patenteados ainda não conseguiram ganhar capacidade para projectar esse mesmo poder.
    A prova está nas doces e directas palavras iniciais de Fradique “… espero que o vosso trabalho tenha corrido bem”.
    É sabido que um certo sector político angolano apoiou de uma forma clara e inequívoca um dos candidatos às presidenciais. E isso evidencia uma clara ingerência externa na política interna de um Estado, mesmo quando este é um Estado-irmão e mesmo que o candidato reeleito Fradique de Menezes não fosse, de todo, descartável pelo governo angolano.
    Os países deveriam, definitivamente – a utopia deve estar, cada vez mais, também no seio da nova política externa dos Estados –, começar a deixar de interferir nos assuntos internos dos seus vizinhos, principalmente quando as relações são muito amistosas e os interesses económicos e políticos apontam no sentido da contenção.
    Como alguém, em tempos, escreveu, Angola tem a pretensão a ser mestre nos assuntos políticos africanos. Todavia, a consistência dos actos praticados tem mostrado que ainda está nos antípodas. Internamente tem conseguido grandes e importantes vitórias. Externamente… vejam o que a China tem trazido a Angola (relembrava um dos primeiros artigos publicado nestas mesmas páginas sobre a China – ed. 56 de Março pp.).
    Veremos o que deu a intervenção política angolana nas eleições congolesas, cujos os primeiros resultados mostram que a pujança política angolana não terá sido suficiente para legitimar Kabila em Kinshasa.
    As eleições santomenses mostraram que a escola angolana ainda precisa de dar muitos passos. Essa foi a grande lição dos santomenses.

© Publicado no semanário santomense Correio da Semana, ed. nº. 78, de 19-Agosto-2006
 
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