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2014 - Mangueira, a minha árvore natalícia (conto) PDF  | Imprimir |  E-mail

Mangueira, a minha árvore natalícia*
por: Eugénio Costa Almeida©


Depois de reler o poema “Minha Árvore de Natal”, que em tempos escrevi, recordei-me que também eu, quando kandengue tinha uma árvore que muito bem poderia ser igualmente a minha outra grande Uti de Natal.

Assentada, provavelmente pelas mãos hábeis do Destino, no meio do meu bairro, uma frondosa e magnífica árvore era a testemunha muda das nossas brincadeiras diárias e, principalmente, das oviteke brincadeiras natalícias.

Ao contrário da Europa, em África, pelo menos no meu bairro e na minha cidade as prendas, quase sempre pobres, mas eram as nossas, eram abertas na manhã do dia de Natal.

Era ver os kandengues da minha idade à volta do seu tronco e sob a enorme copa da árvore, brincar com os carros de lata – por vezes e quase sempre feitos a partir de latas de azeite e de leite em pó –, ou rodar os brilhantes aros de pneus de bicicletas arrastados por arames ou paus, ou fazer saltar as bolas coloridas que algum lá recebia e já não havia árvore que nos impedisse de jogar futebol de rua, em grandes reviangas, esquecendo, por momentos, a habitual bola de trapos.

Às vezes um ou outro lá recebia uma pistola e era vermos a brincar ao okukwata-kwata ou aos polícias e bandidos. Ou, ainda, alguns de nós lá éramos mais felizardos e recebíamos pequenos carritos com que fazíamos pistas para corridas à volta da nossa uti. A mesma árvore que nos oferecia as suas salientes raízes para nos sentarmos e lermos algum livro que nos aparecia.

E quando nos cansávamos havia sempre um mais afoito que subia à árvore e apanhava os seus belos, matizados e suculentos frutos que pendiam como bolas coloridas de uma qualquer árvore de Natal.

Ou quando havia problemas a resolver os Mais Velhos, os seculos, se reuniam em njango, sob ela, para discutir e resolver as makas que surgiam.

Aka, como tenho saudades do tempo em que era kandengue e brincava à volta e sob a copa da nossa mangueira ouvindo o belíssimo trinado dos coloridos olonjila!

Aka, como tenho saudades da minha mangueira e ela ainda permanece, em pé, imponente, no largo do bairro, como uma sentinela sempre pronta a testemunhar, mudamente, a vida de todos; os antigos e novos kandengues!

 

Glossário:

Aka – interjeição (por vezes de admiração)

Kandengue - criança

Makas – problemas

Njango – redondel onde se fazem reuniões importantes

Okukwata-kwata – agarrar (agarra-agarra)

Olonjila(onjila, singular) – pássaros

Oviteke (ochiteke, singular) – matutinos, crepúsculos

Revianga(s) – finta(s)

Seculos – Kotas, Mais Velhos

Uti – Árvore

 

Dezembro de 2010

Nota: Incialmente publicado no bolgue Malambas (Contos da vida real 12), com o heterónimo Usil Eyala Tibolo (http://malambas.blogspot.com)

 *Texto publicado no semanário Novo Jornal, edição 361, secção cultural “Mutamba”, de 26 de Dezembro, de 2014, página 7.

 

 
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