Eugénio Costa Almeida
Já muita tinta decorreu desde que começaram os disparates sobre os cartoons (ou será cartunes, como já terá sido aprovado nas Academia de letras luso-brasileira) de Maomé ou a ele relacionados.
Desde a apologia do terror, pelo terror, atacando indiscriminadamente interesses ocidentais, ao apopléctico grito de “aqui d’el-rei” que a liberdade de expressão está ameaçada, muito se tem feito e muito se tem dito.
Não me parece que ambos tenham razão.
Por um lado, se é verdade que no Islamismo não é bem vista a representação gráfica de Deus (Alá) ou de profetas, pelo que foi um contra-senso o modo como um humorista quis alertar para os perigos do fundamentalismo islâmico e das livres e insensatas atitudes iranianas (e isto, note-se e ressalve-se, aconteceu em Setembro de 2005, e não agora), também é verdade que usar a questão da livre expressão para pôr em causa o direito à indignação é uma forma simplista de resolver ou atapetar as questões mais críticas e perigosas, sejam sociais, religiosas, políticas ou económicas. Um bom cartune é aquele que ironiza ou ridiculariza com elegância e inteligência.
Porque se é evidente que nem o mundo islâmico tem o direito de mostrar a sua indignação nos moldes como o fez, e faz, – e nisso Dalil Boubakeur, reitor da Grande Mesquita de Paris e presidente do Conselho Francês do Culto Muçulmano, apesar de não concordar com o enquadramento jurídico por ele apresentado, mostra muito mais bom-senso – também o mundo ocidental não deve continuar a demonstrar medo – pânico será a palavra mais correcta – perante as sistemáticas catilinárias islâmicas sempre que alguma coisa, ou algum assunto – e as recentes imagens de soldados britânicos a espancarem rapazes iraquianos por certo não ajuda –, não lhes corra de feição ou não lhes interesse que seja do domínio público.
Porque aqui é que está o ónus do problema.
Todo o mundo diplomático, académico e, porque não dizê-lo, principalmente, o mundo jornalístico sabe que os extremistas, e não só, islâmicos dominam, como poucos, os novos meios comunicacionais, sejam eles os mais globais, como a Net ou os vídeo e hertzianos, ou os de massa, como os utilizados juntos da populaça através dos altifalantes do minaretes ou dos jornais de parede (tão bem usados como foram pelos maoistas).
É, claramente, o que se está a ver com o problema iraniano. Porque, se não, vejamos.
Os cartunes da discórdia – e diga-se em abono da verdade estão, também a ser aproveitados por uma facção clerical extremista com vista evitarem futuros cartunes de ou relacionados com o cristianismo – foram publicados em Setembro, ou seja, há quase uma ano; só começaram os problemas, os verdadeiros problemas, em finais de Janeiro. Isto é, quando o mundo ocidental começou a prever quais os problemas que uma nuclearização do Irão poderia acarretarem para aqueles e, porque não dizê-lo, por estarem mais pertos, mas nem por isso parecem estar a percebê-lo, do mundo árabe.
Paradoxalmente, qual tem sido o papel do mundo ocidental? Claramente nenhum. Exceptuando, talvez, as televisivas e irritadas palavras do presidente francês, Jacques Chirac, ameaçando com uma retaliação do mesmo teor. Ou seja, um renascer guerra-fria ou, mais concretamente, a dissuasão nuclear.
Mas alguém acredita que o Irão já tenha capacidade para promover uma, pequena que seja, crise nuclear? Se assim for, então a diplomacia e os governos ocidentais têm, sistematicamente, mentido aos seus povos.
E, onde está a tal propalada polícia do Mundo? Bom, uma vez mais ficamos com a sensação que estamos a ser, continuamente, aldrabados e, afinal, o Irão terá mais capacidade nuclear que aquela que nos querem fazer crer.
Se assim não é, então porque o Ocidente não tenta acabar com a sistemática e absurda chantagem dos extremistas islâmico, sempre em nome dos mais altos valores religiosos.
Será do petróleo? Não creio; sabe-se que as reservas árabes já só cobrirão as necessidades ocidentais até aos meados da próxima década e a ritmos de extracção mais lentos. As maiores riquezas estarão em África, na América Latina e no extremo sudeste asiático.
Então porquê este sistemático “abaixar de calças” do Ocidente perante os extremismos islâmicos? O que saberão os governos ocidentais que nós não saibamos?
Ou será que a chantagem política e pseudo-económica dos países árabes, que por sinal, odeiam os persas do Irão, vai muito mais além do que aquilo que nos têm transmitido?

Publicado no semanário angolano “Semanário Angolense”, ed. nº. 151, de 18 a 25.Fev.2006
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