Eugénio Costa Almeida

O AngoNotícias, numa das suas últimas manchetes e tendo por base um artigo do “Agora” procurava analisar a nova geo-estratégia chinesa para África, através da ponta-de-lança que Angola está, ou parece estar, a ser na persecução da sua estratégia. Parece, porque, também em Moçambique e em outros países africanos, os chineses estão a adoptar as mesmas medidas mestras nas novas relações com África.

Durante um largo período essas relações esfriaram-se ou retraíram-se; nomeadamente no chamado “pós-queda do muro” com o protagonismo Ocidental a e acentuar e o Mundo socialista hibernar, para agora, e fazendo jus à sua proverbial paciência – primeiro assentaram a sua política interna de “um país, dois sistemas” – adoptarem uma agressiva política de desenvolvimento e cooperação. Ou seja, estão a procurar recuperar o estatuto de líder do terceiro Mundo, ou do chamado Mundo em desenvolvimento.
Não está em causa o protocolo de cooperação com a China; não estará em causa, também, a vinda de chineses (essa de olhos rasgados, pode-se pensar, mas nunca escrever; é pouco ético, para não dizer muito jingoísta) que poderá trazer uma mais-valia. Só que o problema é este mesmo.
Será que os chineses que vêm para Angola trarão mesmo mais-valia técnica e profissional? Ou será que é mão-de-obra barata e "calada" para executar as tarefas no mais curto espaço de tempo e custo. Pois isto é o que me parece estar a acontecer.
Não creio que a chegada de operários chineses esteja a trazer mais-valias qualificadoras aos operários angolanos. O problema, o grande problema, está que, enquanto para um angolano o tempo de trabalho tem "horas" claramente definidas, para um chinês esse mesmo tempo dura, caso necessário e passe o exagero, 24 horas.
É este o problema principal do convénio angolano-chinês, como tem sido, também, com outros Estados africanos. A exportação clara de mão-de-obra barata, não-qualificada e excedentária.
Vem dinheiro (nada mais incorrecto; dinheiro entra, mas petróleo e juros, mesmo que baixos, acabam por sair a maior velocidade) e com ele a recuperação de hospitais, escolas, estradas, casas, linhas-férreas, etc., mas vem, também, operariado não qualificado, ou deficientemente qualificado, a custos baixos para a China, que não para Angola. Apesar de estarem enquadrados no referido convénio, os angolanos acabam sempre por pagar a sua estadia, sem que eles deixem realmente qualquer mais-valia profissional técnica ou formativa
Mas apesar disso, não deveremos deixar de aprender qualquer coisa a sua estadia; nem que seja como recuperar os caminhos-de-ferro para a sua manutenção futura, ou como melhorar as estradas para desenvolver o país e, mais tarde, saber como manter a sua conservação (isto de Angola, em tempos, ter tido das melhores empresas africanas de terraplanagens e não precisar de ensinamentos… mas isto foi antes duma estúpida guerra que só acabou há quatro anos…será?) ou como tornar a engenharia reconstrutiva mais produtiva.
Por vezes, ver – que não só olhar – também ajuda a apreender mais-valias. Vê-se, pratica-se; logo, aprende-se!


Publicado no AngoNotícas de 21-Fev-2006

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