Eugénio Costa Almeida

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Enquanto o problema estava entre as traquinices político-económicas de Xi Jinping e Trump até parecia interessante, ainda que os efeitos colaterais, por vezes, fossem um pouco indigestas para terceiros, mas..


Agora,quando o MIREX chinês começa a "perder a secular e proverbial paciência" e avisa que « “certas forças políticas norte-americanas” sobre a origem do novo coronavírus estão a colocar os dois países “à beira de uma nova Guerra Fria”, tornando “reféns” as relações entre os dois países» a coisa começa a não parecer mera conversa de bastidores, mas um forte e directo aviso a Washington DC; e aqui, não vale a pena Donald Trump ir para o green jogar golfo como se nada fosse porque os chineses não têm hábito em falar para o ar. Bluff, às vezes, sim para só falar; mas quando a conversa tem cabeça, tronco e membros, aqui até vizinhos ponderam se não devem estar de sobreaviso.
A India, está a levar militares para uma linha de fronteira reclamada pelas duas partes e já houve recontros.
Até russólogos admiram e "felicitam” a forte e bem armada esquadra naval chinesa, bem como a sua capacidade de disparar mísseis a média e longa distância.
Ainda esta semana um relatório norte-americano considerava as instalações de Guan em situação de “sério perigo”, em caso de ataque chinês e, parece, sem capacidade de resposta imediata, dada a perigosidade dos projéteis chineses sobre os navios norte-americanos que derrotam as águas do Índico, nomeadamente, no Mar da China, e do Pacífico. Mera procura de impacto sobre os senadores e congressistas para estes abrirem os “cordões à bolsa” e o Pentágono poder modernizar as suas forças navais e aéreas?
Por outro lado, a tomada de força política chinesa sobre Hong-Kong faz crer que começam a estar a ver a sua paciência chinesa esgotada e nem o proverbial respeito pelos tratados internacionais, nomeadamente com o Reino Unido, impedi-los-á de intervirem, com força, na "cidade-rebelde", mesmo que isso faça travar as suas "investidas" para "recuperar" a província rebelde de Taiwan.
Porque como recorda a minha colega investigadora e sinóloga Cátia Miriam Costa, a China é «um país em mudança de paradigma». Xi Jiping sem abandonar a linha política de Deng Xiaoping, «um país, dois sistemas», não tem problemas em usar o poder político que a “nova constituição” chinesa lhe dá para se afirmar ainda mai e com todos os meios.
E o Mundo vê que, ao contrário da grande maioria dos países, os chineses tiveram e vão ter forte impacto na economia, mas serão, talvez, os únicos a manterem um PIB positivo dentro da casa dos 2%...
Talvez não fosse mal as Nações Unidas e o seu Secretário-geral, António Guterres, intervirem e colocar um drink frio nas mãos dos dois líderes mundiais numa final de tarde…
O Mundo agradece, mas os chineses, que procuram reforçar a sua solidariedade com e pós-Covid.19, agradecem ainda mais. Têm muito mais a perder, que a ganhar nesta nova “guerra.fria”.
Os russólogos podem considerar interessante a força naval, mas, por certo, que não lhes agradará ter nas suas costas e uma superpotência política, económica e militar que nunca assinou o tratado Start (Strategic Arms Reduction Treaty) e o Tratado de Céus Abertos (Treaty on Open Skies), em vigor desde 2002 – assinado pelos EUA, Rússia e outros 32 países – e que, ainda, há poucos dias, Trump “rasgou”, na linha do que já tinha feito, em 2019, com o Tratado sobre as Armas Nucleares Intermédias (ou Novo Start), subscrito com a Rússia, ainda que esta, parece e segundo Trump, nunca o tenha ratificado.
São actos que tornam a posição russa menos forte, face à sua tentativa de recuperação e projecção económica, política e militar, nomeadamente, entre e com antigos parceiros, em particular, em África e na Europa, cada vez mais sob a “tutela” da cooperação chinesa.
Porque como relembra, e uma vez mais, a Cátia Miriam Costa, citando a escritora chinesa Karoline Kan, e o seu livro “Sob Céus Vermelhos”, é «mais fácil é criticar a China do que compreendê-la». E nesse aspecto os africanos, melhor que ninguém os têm compreendido. Ainda que o impacto, nomeadamente económico e, por extensão, político, comece a ser um pouco insustentável.
Rememoro um ensaio que escrevi e foi publicado no Vivências Press News, em Abril de 2019, caminhamos, cada vez mais para sair de um internacionalismo bipolar e caminhamos para um novo mundo tripolar. Mas será que os belígeros republicanos e Trump o percebem?…

Publicado no semanário Novo Jornal, edição 640, de 19.Junho.2020; página 35

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