Eugénio Costa Almeida

NJ647 China e USA

Esta é uma questão que tanto pode ser colocada para pessoas, como, e principalmente no caso que aqui me traz, entre países.
O escritor, tradutor e investigador chinês, Juan Shang, num interessante artigo n’ O País, de 20 de Julho (pág. 31), sob o título «China e Estados Unidos da América são amigos ou não?» aborda duas pertinentes questões da política asiática – e sinóloga – da actualidade: as regiões autónomas (principalmente o caso de Hong Kong) e o Mar do Sul da China (ou Mar da China) e a (eventual) interferência política os EUA nestas duas questões (internas) chinesas.


Sendo, como Shang parece recordar, que China e EUA se posicionam, ou posicionavam, como amigos, qual as razões que levam a actual administração norte-americana a se perfilar com um feroz crítico das políticas de Xi Jiping, em particular neste dois problemas críticos na região asiática oriental.
À partida, Shang tenta mostrar que há todo o interesse os EUA em manter a cordialidade que existia entre os dois países até às recentes intervenções de Donald Trump, nomeadamente, com as aprovações dos documentos relativos às Leis de Autonomia de Hong Kong, da Autonomia dos Uigure, da Autonomia do Tibete – que, segundo tudo o parece indicar, o United States House Committee on Foreign Affairs terá estabelecido como alguns de seus objetivos jurisdicionais –, e do comunicado do Secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, sobre o Mar da China que sucintamente diz que “as reivindicações de Pequim de recursos em alto mar e ao longo de grande parte do Mar da China Meridional são completamente ilegais, assim como sua campanha de intimidação para controlá-los”, e a proposta que está sobre a mesa de sanções contra membros do Partido Comunista da China (PCC) e limitação da entrada destes em território norte-americano.
Aqui, curiosa e ironicamente, o investigador chinês pergunta ao Secretário de Estado Mike Pompeo – que terá avançado com a ideia de sanções –, se sabia que o PCC terá cerca de 91 milhões de membros? A velha ironia de que os norte-americanos só conhecem de si – e mal, porque, como já escrevi em tempos, num programa norte-americano de TV, à pergunta “qual o país que começa por U, só uma respondeu e foi Uruguai; ou seja, ninguém soube dizer o seu país, USA –, dos aliados, dos inimigos e dos outros, mas não sabem o conteúdo geopolítico e histórico de cada um…
Um texto que, para quem tiver oportunidade, deverá ser lido. Além de colocar a questão amizade e interesse e que nos traz à questão titulada: o que importa mais, amizade ou interesse?, Shang também se refere a problemas económicos, quando, citando uma investigadora japonesa – ainda que não esteja devidamente identificada no texto –, que recorda que os EUA estão atrasados, tecnologicamente, face à China; indirectamente, Shang neste seu texto remete-nos para a máxima da antigo Secretário de Estado norte-americano, conservador, Foster Dulles que afirmava que os Estado não têm amigos nem inimigos, mas interesses a defender e que Henry Kissinger fazia questão de a usar na defesa dos interesses estratégicos norte-americanos, como observava, em 1981, Denis Joseph Sullivan, na sua Dissertação «A comparative analysis of John Foster Dulles and Henry A. Kissinger and the impact their personalities on the formulation on American Foreign Policy», na Western Michigan University.
Não direi, não sei, se, actualmente, os EUA estão ou não, desactulizados ou desfasados tecnologicamente face à China. É certo que em certas áreas tecnológicas os norte-americanos estão totalmente ultrapassados.
O caso da tecnologia 5G em que os EUA, com ou sem razão quanto à “subserviência” da Huawei aos serviços secretos e militares chineses, estão totalmente ultrapassados face à sua concorrência asiática e europeia. Diga-se que em termos de telecomunicações há muito que Washington deixou que as suas principais empresas de telecomunicações fossem ultrapassadas por europeus e asiáticos. Não esquecer que muita da tenologia “hardware” e algum “software” norte-americana é produzida e, ou, trabalhada na China, na Malásia, na Coreia e em Taiwan.
Tudo a administração Trump tem feito que os parceiros europeus e os da NATO não “consumam” produtos da Huawei. Quer por via de ameaças sancionatórias, como por via de ameaças económicas. E militares. E não o estava a conseguir até a China, na minha opinião, ter criado o maior erro político interno, no caso a “anulação da autonomia” de Hong Kong – ficaria intacto por um período de 50 anos – em que Xi Jiping fez algo que nenhum político chinês tinha feito até ao presente, esquecer os tratados em vigor, como o que a república Popular China, segundo a linha política de Deng Xiaoping, “um país, dois sistemas”, celebrou com o Reino Unido sobre aquele território. Nem a questão do coronavírus parecia conseguir unir os aliados norte-americanos às exigências de Trump: não acolher o sistema 5G da Huawei. A prova está que o Reino Unido, um dos mantinham a Huawei na lista para o concurso, o retirou, admitindo que, e cito, a razões da sua ausência é mais geopolítica que económica ou de sistema. Isto mesmo assenta o The Guardian, num texto de Toby Helm, no passado dia 18 de Julho «The British government privately told the Chinese technology giant Huawei that it was being banned from Britain’s 5G telecoms network partly for “geopolitical” reasons following huge pressure from President Donald Trump, the Observer has learned»
E isto também se está a reflectir nas relações como o “mais difícil aliado norte-americano, ou seja, com a Índia que não só não aceita que a Huawei seja concorrente ao sistema 5G, como está a cancelar o acesso a várias dezenas de aplicações chinesas. Fruto daquilo que defini de “guerra das pedras” ou “stonewar” / “rockwar”.
Mais recentemente a crise e a tensão sino-americana tiveram o seu auge com as questões dos consulados. Os EUA mandaram encerrar o consulado chinês, em Houston, Texas, e expulsaram diplomatas chineses sob acusação de espionagem e da necessidade dos norte-americanos em manter uma «proteção da propriedade intelectual», no que foi veementemente contestado pelas autoridades chinesas. Estas, como retaliação decidiram mandar encerrar o consulado norte-americano de em Chengdu, no sudoeste da China. Admito que cheguei a ponderar que pudesse ser o consulado de Hong-Kong o visado. Isto seria um golpe forte de Beijing sobre os democratas da região autónoma administrativa porque perderiam um aliado de peso. Mas, como sempre, a política externa chinesa se pontifica, em regra, pela prudência e pela visão de futuro. Daí ter sido Chengdu e não Hong-Kong o consulado visado. Ainda que ambos não distanciem muito um do outro.
Repito, a política externa chinesa se pontifica, em regra, pela prudência e pela visão de futuro; por norma os chineses não costumam retroceder nas suas atitudes e posições políticas, porque o que fazem, transmitem, em regra, uma perspectiva diplomática futura. Mas quere-me parecer que Xi Jiping jogou cartada errada. Está a dar a Donald Trump aquilo que Plutarco, definiu de «Como tirar proveito de seus inimigos» (precisamente título de uma das obras plutarquianas). Aproximou aliados contrariados a algumas politicas de Trump, em contraponto a interesses chineses.
É certo que, como recorda Henry Rohan, na obra «De l ´intérêt des princes et des Etats de la chrétienté» (Paris, edições PUF, 1995, pág. 161) “Os príncipes comandam os povos e o interesse comanda os príncipes (...)” em que estes podem sempre enganar “o seu Conselho” podem ser sempre corrompidos, “mas apenas o interesse nunca falha. Se for bem ou mal-entendido, ele faz viver ou morrer os Estados”.
Aqui, os príncipes são as respectivas administrações chinesas e norte-americanas, ou seja, Xi Jiping e Donald Trump. Como eles vão manter os seus interesses intactos sem que eventuais problemas pessoais possam colocar em causa valores mais importantes, como economia, finanças e defesa nacional, é algo que não sabemos predizer, mas que as eleições norte-americanas de Novembro próximo podem ajudar a clarificar.
Até lá, há uma questão que se põe e que Putin também não está a ajudar com as suas actuais políticas de expansionismo político e militar: irá algum (dos dois príncipes) aguentar a pressão do outro? Será que as eleições norte-americanas serão influenciadas pela atitude de um dos príncipes?
Aguardemos…

Publicado no semanário (angolano) Novo Jornal, edição 47, de 7 de Agosto de 2020; página 37
Partilhe este artigo
Pin It

Escreva-me

Pesquise no site