Eugénio Costa Almeida

NJ655 02Out2020 Pode haver uma Lusofonia ou devemos mudar

1. Recentemente, na 90ª Feira do Livro de Lisboa, eu e Jonuel Gonçalves fomos convidados por João Ricardo Rodrigues, editor da portuguesa Perfil Criativo e co-editor da angolana Alende, para um debate sobre a Lusofonia no Atlântico Sul.
Na altura e procurando polemizar um tema que, já de si, é e continua a ser controverso apresentei uma análise sobre o aparecimento da expressão “Lusofonia” e de quem foram ou terão sidos os seus criadores e, ou principais teorizadores desta expressão que seguia e segue a versão francesa de línguas-mater: francofonia (francesa), anglofonia (inglesa) hispanofonia (hispânica ou castelhana), russofonia (russa); em contraponto aos países de língua inglesa que, pura e simplesmente se definem por «english speakers» ou «portuguese speakers».


Só que ao contrário do que defendem os francófonos, o português só é língua materna de Portugal e do Brasil. Os países africanos de expressão oficial portuguesa e os timorenses têm línguas nacionais que devem ser consideradas como as realmente maternas; ainda que no Brasil há quem defenda que o guarani, tal como no Paraguai, seja uma língua materna.
Recordo que há uns anos, no portal “Portugal em Linha” escrevi uns dois ou três textos sobre esta temática da Lusofonia, entre eles, um intitulado «Quando a Lusofonia provoca desconforto», na sequência de uma observação do então secretário-executivo da CPLP, o embaixador Luís Fonseca, admitia que a expressão “Lusofonia” ainda provocava algum certo desconforto junto de alguns sectores intelectuais e de dirigentes, nomeadamente, nos países onde as memórias de crises coloniais mais se fizeram sentir.
E sobre isto rememoro uma expressão (facial e linguística) de Fernando Baião, antigo governador do BNA e vice-Ministro das Finanças, por quando do lançamento do livro “Branco do Quintal”, na Casa de Angola, em Lisboa – era eu, há época o Director ou Vogal de Direcção responsável pela cultura – quando se referiu à CPLP e à Lusofonia. Para Baião, nem uma coisa, nem outra eram aceitáveis de serem adoptados, livremente, pelos Angolanos. Uma e outra pareciam imposições externas e sem sentido.
Mas, como adiante verificaremos, não era o único.
Mas voltemos ao início. Quem criou a expressão Lusofonia?
2. De acordo com alguns textos e teorizadores a primeira pessoa que “terá lançado” a expressão Lusofonia, teria sido o Professor Arquitecto Troufa Real. Outos defendem que teria sido o Professor e antigo reitor da Universidade Lusófona, Fernando dos Santos Neves.
Os que defendem Santos Neves como o criador da Lusofonia, sustentam a sua tese num artigo de 2013, “As 11 Teses sobre a Lusofonia” onde este sustentava que após os3 D’s (Descolonização, Democratização e Desenvolvimento) Portugal tinha criado condições para um espaço Lusófono ou, mais concretamente, para um “Mar Lusofonês” como definiu. Só que os 3 D’s foram uma defesa do 25 de Abril e do programa da do MFA, em 1974/1975. E o texto de Santos Neves foi escrito, muitos anos depois, em 2013, e, nesta altura, já se falava muito na Lusofonia. O meu artigo que acima recordo foi escrito em Maio de 2008. Por isso difícil de, pelo menos, ser impossível ser este artigo de Santos Neves o precursor da Lusofonia.
Acresce que há outros autores que admitem que a Lusofonia tem raízes mais a montante ou outros defendem outros autores como criadores da expressão Lusofonia.
Por exemplo Maria de Sousa Gamito, num artigo de 2012 intitulado “Conceito de Lusofonia”, defende que Fernando Cristóvão, em 2005, terá sido o definidor do conceito de Lusofonia, mas nunca indica quando Cristóvão o deu à estampa.
Mas Sousa Gamito, como sustentáculo ao conceito da Lusofonia e da sua aceitação pelos antigos países coloniais recordava que Amílcar Cabral afirmava que, e cito “o português foi a melhor coisa que os tugas nos deixaram” (não sei se a expressão tuga já era existente na expressão linguística do português dos guineenses, dado que Amílcar Cabral, ou Labrac, o poeta, foi morto antes da independência, mas…)
Alguns que defendem a expressão Lusofonia, vão buscar sustentáculo ao luso-tropicalismo de Gilberto Freyre e do seu “Casa-Grande e Senzala” de 1933.
Também o investigador macaense Jin Guo Ping, num texto de 2003, “Lusofonia: História e Realidade”, refere ao aparecimento da palavra “Lusofonia”, mas seguindo o que muitos fazem, ou seja, seguindo o que descreve o Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia de Ciências de Lisboa. Realmente este Dicionário define Lusofonia (substantivo) e Lusófono (adjectivo) mas nunca indica quem foi o criador da expressão “Lusofonia”.
Jin Ping propõe que a palavra Lusofonia seja traduzida para chinês como “Mundo Lusófono” ou “Puyu Shijie”.
Por sua vez, Vítor de Sousa, no livro “Da Portugalidade à Lusofonia” explica que Lusofonia tem a sua génese na Portugalidade. Por esse facto, e na linha do que Baião exprimia, muitos países e falantes de português têm anti-corpos a essa expressão linguística: Lusofonia.
Isto recorda-me que nos comentários a um outro meu texto, no mesmo portal “Portugal em Linha”, de Dezembro de 2009, e ainda sobre esta temática, intitulado «2009 molda a língua e traz novo país lusófono», alguns brasileiros recusavam aceitar que falavam português, mas brasileirês; e muito menos eram Lusófonos! E alguns dos comntários eram bem vernaculares…
Outros autores navegam na mesma linha de pensamento, no que tange, a “arrepios” quanto à Lusofonia. Por exemplo, Alfredo Margarido, no texto, de 2000, “A Lusofonia e os Lusófonos – Novos mitos portugueses”. Mia Couto, num texto de 2009, alertava que o exagero do uso do termo Lusofonia pode gerar um caminho para um “luso-afonias” (perda de voz) mas num sentido em que, devido esse excesso, a sociedade [moçambicana] poderia levar à perda de uma realidade de falantes de base portuguesa. Como este autor moçambicano e gerador de múltiplos termos para a língua portuguesa recorda, a certa altura o Governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa, em Moçambique, que Portugal e os seus múltiplos organismos de raiz lusófona.
E eu acrescento, não só em Moçambique isso aconteceu. Angola, nomeadamente com a criação das Forças Armadas Angolanas e da necessidade de haver um elo linguístico de união entre militares que vinham de diversas áreas linguísticas nacionais, é um dos casos onde o português foi mais defendido, pelo país e não pelos órgãos portugueses.
Mas ainda relacionado com a língua portuguesa e a adopção da mesma como língua de união entre os Povos, e na linha do que Mia Couto referiu quanto ao Governo moçambicano, o Professor Lourenço Rosário, da Universidade Politécnica de Moçambique, recordou, um pensamento de Samora Machel. Que, de certa forma, vai ao encontro do que Amílcar Cabral terá afirmado: “o português foi um troféu de guerra deixado pelos portugueses”.
3. Ou seja, a língua portuguesa deixada pela colonização portuguesa serviu para unir o Povo moçambicano. Como o Povo Angolano, de início, o Cabo-verdiano e o Santomense. Menos, muito menos, o Povo da Guiné-Bissau e, parece, que vai perdendo alguma força em Timor. Mas ganha força em Macau, com o apoio dos Chineses que veem na língua portuguesa o elo necessário para se comunicar com os Povos de Língua Oficial Portuguesa. Ou seja, com os PLOP.
De facto, são mais os anti-corpos à expressão Lusofonia que os que a defendem. E, nomeadamente, após o Acordo Ortográfico, cada vez mais contestados, até por países que o defendiam e já o ratificaram, como o Brasil, por exemplo, e, ou, em Portugal, onde decorre uma recolha de assinaturas para que o mesmo seja revisto e readaptado.
De facto, ainda que com algumas reservas a proposta de Jin Ping em definir os PLOP como, eventualmente, um Mundo Lusófono, poderá ter algum sentido. Pessoalmente prefiro que se comece a usar – é mais uma – o acrónimo PLOP. Não incomodará muito, ou, pelo menos, incomodará muito menos que a expressão Lusofonia que define um povo “os Lusitanos ou Lusos” e a sua forma de falar. Logo, sustenta com algum rigor, o “demasiado aconchego” de uma antiga potência sobre as suas antigas colónias e pode levar que o português, tal como referia Machel, deixar de ser um nosso troféu de guerra.

Publicado no semanário Novo Jornal, edição 655, de 2.Outubro.2020, pág. 37 (aceder ao site aqui)

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