Eugénio Costa Almeida

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Há cinco anos quando estávamos a celebrar os 40 anos da Dipanda eu escrevia isto: «Estamos na recta final para a comemoração dos 40 anos da independência de Angola (…). É, talvez, uma boa altura para começarmos a fazer – ou tentar fazer – um balanço e perspectivas para Angola para os próximos anos». Na altura sublinhava que, na realidade, era mais correcto escrever «(…) “tentar fazer” do que avançarmos para afirmação de um balanço do que já aconteceu nestes 40 anos e, ainda mais difícil, perspectivar, nos actuais tempos de crises económica, política e social, o que será, no futuro, Angola».
Recordava, então, ou melhor, esperava, então, que 13 anos depois da «assinatura de Paz de Luena, em 4 de Abril de 2002, rubricada entre duas personalidades castrenses (os generais Cruz Neto, por parte das FAA, e Kamurteiro, pela parte da UNITA)» poderíamos entrar num excelente período de desenvolvimento económico, e de crescimento, ainda que, naturalmente, não poderíamos manter um crescimento de dois dígitos altos, como estávamos a ter nessa altura, porque, esperávamos, que deixássemos de continuar a estar sob a mono-dependência económica do petróleo, apesar dos altos preços que, há época ocorriam, até porque, segundo os especialistas, o preço do crude poderia ter fortes oscilações e reajustes – e isso, directa ou indirectamente, veio a ocorrer – que poderiam influenciar a nossa economia; como acabou por estar a afectar fortemente. Isto porque continuamos a depender do petróleo para o nosso reajuste financeiro.
Recordava, também, que o referido crescimento teve a massiva contribuição e o contributo financeiro da China. Ainda que, questionasse até onde iria o impacto desse contributo nas nossas políticas económicas, sociais e diplomáticas. Soubemos, de certa forma, manter uma status quo equilibrado entre as nossas necessidades financeiras – bem como a nossa difícil capacidade de cumprir os nossos compromissos (leia-se, estabilizar a dívida) de pagamento do serviço da dívida.
Conseguimos; de facto andamos a conseguir. Mas só até começar a pandemia do SARS-CoV-2 (Covid-19) nos colocou no lote dos países com dificuldades de cumprir com as regras financeiras de bons pagadores, o que levou a China nos colocar nos países em standby no que tange aos pagamentos, mas cujo o tempo de carência que nos foi “oferecido” terá as suas naturais consequências, como, por exemplo aumentar a dívida com Beijing, mas que, numa recente entrevista à revista Business Trace, o Ministro- Conselheiro da China, em Angola, Li Bin, parece ter desvalorizado um pouco, ao recordar que a China é o nosso maior parceiro comercial e que Angola é o segundo maior parceiro comercial da China, no continente africano. E mais recordou que parte da dita dívida – parece ter sido essa a interpretação – é um mito porque está subordinada à Linha de Crédito da China que nos terá ajudado a construir muitas infraestruturas e obras físicas diversas (imobiliários, por exemplo). Mas a dívida, que não sabemos quantificar e que os sucessivos Governos, se obstam em divulgar, mesmo que por defeito, continua a persistir e terá, forçosamente, impacto nas próximas gerações.
Entretanto, nestes cinco anos, mudámos de “gestor governativo” com a eleição de João Lourenço para Presidente da República, e esperámos que alguma coisa mudasse.
Mudou, indiscutivelmente! Só que as mudanças efectuadas e as que esperávamos viessem a ocorrer foram poucas ou estão a derrapar em alguns interesses ainda estabelecidos e que impedem o Presidente de ter uma força mais impulsionadora para poder levar alguns dos seus objectivos por diante – e alguns foram conseguidos, como a procura de recuperação de activos financeiros e imobiliários obtidos irregularmente por antigos membros da nomenclatura –; só que outros, bem importantes, estão a ficar pelo caminho, como por exemplo, o combate ao desemprego – quem ajudou a escrever o recente Estado da Nação, lido pelo Presidente, informou-o deficientemente sobre a realidade dando exemplos falaciosos quanto à criação de emprego, mas esquecendo o “perigoso” desemprego jovem e de recém-licenciado cujo o impacto social se está a verificar recentemente. Mas também está a ficar pelo caminho algumas sugestões sociais que se esperavam viessem a ocorrer; é certo que não somos ingénuos em acreditar que Roma e Pavia se fizeram num dia, mas, entre (quase) nada fazer ou fazer pouco, a diferença ´nula.
E, depois, o que todos esperavam que viesse ocorrer entrou nas calendas gregas; na escuridão temporal: as eleições autárquicas. É certo que nunca foi dito que seria em tal data, mas foi deixado explícito que poderia ser até final de 2020. A pandemia não pode ser panaceia para todas as desculpas. Cabo Verde – é certo que estão mais adiantado em termos de actos eleitorais autárquicos – fê-las recentemente; e não estão livres, bem pelo contrário, do Covid-19.
Mas… muita coisa poder-se-ia aqui escalpelizar do quanto os 45 ano que agora se comemoram ainda no mostram estarmos bem distantes do que aa Dipanda nos parecia prometer após 2002 – e, sublinho, após o 4 de Abril de 2002, dado que até aqui, estivemos sob o espectro de uma crise político-militar fratricida e castrante –, com o desenvolvimento económico, financeiro, social e político, mas que não soubemos trabalhar em termos de futuro, armazenando sabedoria e condições político-económicas para as “vacas magras” que, ciclicamente, aparecem na vida política, social e económica dos Estados.
Todavia, ainda que seja uma repetição do mas, como sou um Angolano optimista e, como incessantemente me dizem e “acusam” de ver sempre um País forte, desenvolvido e com um potencial enorme, continuo a prever que ainda iremos ser uma grande potência social, económica e política: um grande exemplo para toda a África.
Deixem-me sonhar e nos 50 anos de Dipanda poder dizer: eu tinha razão neste último ponto!

Publicado no Novo Jornal, edição 661, de 13.Novemrbo.2020, página 25 – Edição especial “Dipanda – 45 anos” - Pode aceder ao artigo original clicando na imagem do texto

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