Eugénio Costa Almeida

 

À partido, por certo, perguntar-me-ão o que têm de comum as nossas províncias com a de Cabo Delgado? De facto, ab initio, parece nada haver de comum, mas…
Mas… a província setentrional moçambicana e Cabo Delgado, como é do domínio público – e que já que ocorre há cerca de 4 anos –, padece de uma crise político-militar terrível com ataques de insurgentes, ditos islâmicos – mais adiante, digo porque indico “ditos” – sobre as populações e sobre a economia da província com impacto na economia, na política e na vida social dos moçambicanos.
O mais recente foi o ataque a uma das principais vilas da província, onde estão estacionados a maioria dos expatriados e de muitos trabalhadores moçambicanos das empresas que exploram o gás no offshore moçambicano junto desta província. Que, sublinhe-se, coloca Moçambique entre os futuros 5 maiores produtores mundiais de gás e que, quando em exploração total, pode mesmo colocar este país entre os 3 maiores produtores mundiais. Actualmente, e de acordo com o “IndexMundi – reservas provadas”, as reservas efectivas colocam Moçambique (em 2020) em 13º lugar, sendo que em África é só suplantado por Nigéria e Argélia, países já devidamente implantados na exploração e exportação de gás natural (já agora Angola, está em 36º lugar em termos de reserva confirmada).
Uma vez mais perguntar-me-ão, e de novo, o que têm Cabinda e Lunda a ver com Cabo Delgado? Simples!...
As nossas províncias são produtoras e exportadores de hidrocarbonetos, em particular, petróleo (Cabinda) e de pedras preciosas, com destaque para os diamantes (Lundas); por sua vez Cabo Delgado é produtora e exportadora de hidrocarboneto (gás natural) e de pedras preciosas (rubis).
As 3 províncias sofrem de graves problemas sociais, infra-estruturais, políticos e rebeliões militarizadas e, ou, políticas secessionistas – caso particulares das nossas províncias de Cabinda e Lundas. Outro factor que as une, é o facto de parte das actividades serem produzidas e fomentadas a partir do exterior, mas com apoio interno assente naquilo que as capitai parecem querer preferir desconhecer: o que produzem, pouco ou muito pouco, voltam à províncias produtoras e, por esse facto, há menor desenvolvimento económico e social nas mesmas o que reflecte no desagrado das populações, em particular, junto dos jovens que se ficam perante o facto de desemprego e de estagnação social no que é apropriado pelos que defendem por todos os meios – legitimamente, ou não – separação e, ou, rebelião armada.
Por vezes, essa rebelião pode ser sustentada em vectores não políticos, mas religiosos, como parece ser o caso de Moçambique. Quando atrás escrevi “ditos islâmicos” deve-se o facto de algumas atitudes nata terem a ver com a sharia e com a rebelião armada que, normalmente, os radicai islâmicos, nomeadamente e no que tange a África, costumam praticar, em particular, no caso recente de Palma (Cabo Delgado) terem preservado uma igreja católica; ainda que, em outros factos, as suas actividades sejam consistentes com os que Boko Haram, por exemplo, faz: rapto e crianças, em particular raparigas (para venda), decapitação de quem não acolhe ou pode acompanhá-los, etc.
Naturalmente que estes factos nada têm de similitude com o exclave de Cabinda – luta pela independência territorial com confrontos entre secessionistas e as FAA –, ou com as Lundas – separatismo político não-armado – e ambos caso baseados em factores históricos que persiste serem ostracizados pelas nossas cúpulas políticas.
Se no caso de Cabinda, o factor é meramente político, nas Lundas a aproximação territorial a uma província, Moxico, atravessada por uma linha férrea que conflui numa outra intra-africana, com “início” em Lubumbashi (RDC) e que vai desaguar – também – a Nacala (capital da província moçambicana de Nampula e “encostada” a Cabo Delgado) e sabendo-se que muitos dos ditos islâmicos têm Lubumbashi como ponto departida para as suas actividades em Moçambique e que Angola, no que toca aos islamismo, tem tido um comportamento que já foi criticado, como nos recordamos por causa do fecho e algumas “mesquitas”, por fontes islâmicas no Norte de África, ora, devemos ter em conta uma possível penetração desses ditos radicais islâmicos no nosso País, com todas as consequências que disso possa advir e com extensão às Lundas, onde aqueles poderão se sustentar com a ilegal exploração diamantífera.
Esta é uma situação futura que pode “unir fraternamente” ainda mais Cabo Delgado e Lundas se os políticos, em particular, os de Maputo persistirem em “assobiar para o alto” e que nós devemos ter em conta para não cairmos no mesmo erro: não combater o assunto na origem, sejam dentro dos nossos muros, seja, como tudo parece indicar – quer em Cabo Delgado, quer em Cabinda, quer nas Lundas – no exterior próximo.
Porque é que Maputo – leia-se, o presidente Filipe Nyusi – persiste em não querer accionar a SADC Brigade, no âmbito da OPDS (Órgão de Política, Defesa e Segurança da SADC, tendo em conta a arquitectura de segurança da África Austral), para combater os radicais e, assim, tentar evitar que se propaguem para outras áreas austrais do Continente? Será que o interesse político pessoal e do seu partido são mais importantes que o interesse nacional e regional? Será que Luanda, e no caso o presidente João Lourença, não consegue, seja como presidente da República, seja como líder de um partido-irmão da FRELIMO, fazer ver a Nyusi da necessidade de colocar o interesse regional acima dos seus interesses pessoais e políticos? Ou será que Lourenço já terá falado, mas Nyusi prefere não ouvir, nem às críticas fortes a MRE sul-africana (Ministra Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul), Naledi Pandor, numa recente reunião da OPDS, de que Nyusi é o presidente em exercício?
A cegueira política, seja em Maputo, seja em Luanda, seja em outras capitais africanas, no que tange a questões urticantes, prefere, muitas vezes, fechar os olhos sem se preocuparem com as consequências futuras. Mas nisto não estão sozinhos; por vezes, a comunidade internacional ajuda-os a se manterem fechados para as realidades. E quando acordam, e quando acordamos – são mais as vezes que preferimos seguir pela mesma diapasão a “gritarmos” para que acordem – já as matérias podem estar insolúveis…

NOTA: e por insolúveis, e no que a “cegueira” pode fazer quando se pensa só no “eu” – pessoal e político –, acabo de saber que o recém reeleito presidente chadiano Idriss Débi – ia para um sexto mandato – foi morto em confronto com rebeldes chadianos da FACT (Frente para a Mudança e Concórdia no Chade), que, segundo membros afectos ao governo de Débi, seriam apoiados por forças líbias. Este recontro que provocou a morte de Débi, não era nada que os EUA já não previssem na medida em que já teriam dado ordens aos funcionários da sua embaixada e aos seus cidadãos para se retirarem de N’Djamena. Só os franceses, principais “sponsors” do governo de Débi, correligionados por outras potências ocidentais, sob a capa de Débi ser um “lutador” contra o expansionismo radical islâmico, pareceram não acreditar neste desfecho.
Como comentava assertivamente, numa página social, o Jornalista e Radialista Carlos Gonçalves, sobre isto e pelo facto de Débi ter iniciado a sua projecção através de um Golpe de Estado militar, contra o então contra o presidente Hissène Habré, em Dezembro de 1990, «30 anos depois de tomar o poder na mesma linha da frente! África ensina».
É uma boa lição para outros que persistem em se manterem no poder por vias academicamente pouco democráticas…

Publicado no Novo Jornal, edição 682, de 23 de Abril de 2021, página 07

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