Eugénio Costa Almeida

NJ595 Manter ou revogar o AO90

Se há algo consensualmente do mais dinâmico, aglutinador ou exportador isso acontece com a Língua de um Povo, de uma Cultura ou de uma indistinta Comunidade.
E a Língua Portuguesa é, talvez, das mais dinâmicas nesse estágio. Só assim que compreende que o occipital inferior que liga – ou deveria ligar – a parte erecta do ser Humano, à parte mais flexível do mesmo tenha, consoante a cultura-base onde se insere, adopte diferentes expressões para o mesmo assunto, mas entendíveis por todos: como mataco, em Angola, como bunda, no Brasil, ou como peida ou sim-senhor, em Portugal.
E ninguém questiona se está bem-dito, ou não, e muito menos o seu significado. Como ninguém se atreve a dizer que pelo Acordo – ou desacordo – Ortográfico estas expressões devem ser automaticamente alteradas só porque se diferem na forma, na síntese, mas não no conteúdo.

Este longo preâmbulo prende-se com um excelente artigo de Jonuel Gonçalves, no Jonal de Angola, sobre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), com o título «A urgência na ratificação do Acordo Ortográfico» onde Jonuel começa por escrever que “Se Angola mantiver a antiga ortografia da língua portuguesa, a designação da moeda nacional – por extenso ou em abreviado – estará errada. Não existe no português anterior ao Acordo Ortográfico de 1990 nem a letra K nem a letra W. Por outro lado, após a independência, ampliámos o alfabeto do português em Angola a todas as letras dos alfabetos latinos, muitas vezes usadas na denominação de localidades, províncias e pessoas. Por alguma forma de saudosismo, assistiu-se, anos depois, a regressões ortográficas em geografia nacional, sem um dispositivo legal que as tenha determinado.”
Acolho com respeito as respeitáveis considerações de Jonuel. Mas quero recordar Jonuel que, antes da independência, o “W” – duplo v, como se definia nas escolas por onde passei, principalmente, nas primárias e com particular destaque para as públicas do então Bairro Popular onde fiz a, então, segunda classe, ou a que havia na Cidade Alta, onde estive o primeiro período da terceira classe – e o “K” (capa), bem como o “Y” (o I grego, assim de denominava) eram não só utilizados como, em alguns casos, escritos: Walter ou, e isso não me esqueço – e as professoras eram “metropolitanas” – o K para o Cuanza onde elas sublinhavam que até há pouco tempo se escrevia Kuanza e não Cuanza, pelo que devíamos respeitar as duas formas de escrita.
Creio que oi aqui que comecei a respeitar a língua portuguesa e, talvez, deixar de absorver – e disso me penitencio agora – as línguas nacionais.
Sabe-se que o AO90 entrou oficialmente em vigor em quatro Países lusófonos – apesar de 7 os terem assinado – e que 2 ainda mantêm uma já não-discreta tendência de deixar andar o barco – Angola e Moçambique, com Timor-Leste a ver onde param (do verbo parar, onde pára é diferente de para) as modas – porque é sua opinião que como dinâmica que é, a Língua acabará por se harmonizar não só na escrita – o que está mais em causa – como na maneira de falar.
Portugal, também adoptou a partir de 1 de Janeiro de 2010, tal como o Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, os princípios dos Acordo Ortográfico, acordado por académicos e políticos que se juntaram numa escura câmara conclaviana onde adoptaram as novas formas de escrita.
Desde o início, e ao contrário de dois bons amigos, os jornalistas Orlando Castro (de origem angolana) e Aly Silva (Bissau-guineense), que considerei oportuna uma harmonização da escrita pelos portugueses no princípio da década 10 do século XX, quando alteraram uma série infindável de palavras sem consultar os seus irmãos do Brasil. Era uma escrita toldada, reconheça-se. Muitos termos estavam, claramente, ultrapassados ou começavam a não fazer sentido, como o uso de “PH” com som “F”, ou estilizados “SS” em vez de “Ç”, etc.
A Língua, qualquer Língua viva, é um ser vivo dinâmico, aglutinador e exportador por natureza. Quantas palavras, ou termos, há no léxico do Português, importadas do Brasil, de Angola, de Moçambique, da Guiné-Bissau, ou dos crioulos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e Timor-Leste? Ou de outras raízes que não Lusófonas? Ninguém duvida disso nem o questiona.
Algumas entraram no vocabulário português mais depressa que as de origem Lusófona. E com isso recordo deliciosos termos frutícolas da anatomia humana como o Airbag frontal para definir, Mamas, Tetas, Chucas ou Abono de Vida; já para não falar das Bolas também reconhecido, por Tomates, que caracterizam, o Pai da Humanidade, ditos, o Pau, o Zezinho, ou o Sempre-em-Pé, e outros termos menos susceptíveis de aqui serem transcritos!
E recordo, por exemplo, como a agência portuguesa Lusa decidiu, em Fevereiro de 2010, apesar da derrogação que Portugal impôs de levar a alteração ortográfica em deslize até finais de 2014 – só entrou, oficialmente, em vigor a 13 de maio de 2015 –, de adoptar, no imediato, a nova terminologia. Impor algo criado num qualquer “laboratório” sem que mais especialistas, nomeadamente, os que arrimavam válidas e sustentáveis ponderações diferentes, fossem ouvidos.
Chama-se a isto, neo-colonialismo. Sim, com hífen. Aqui nunca tenho dúvidas e escuso de perguntar porque, com a nova ortografia, “cor-de-laranja” se mantém assim e cor-de-rosa já tem de ser “cor de rosa”?...
E porque se tirou algumas consoantes que alguns dos tais especialistas que adoptaram a novel escrita se esqueceram que, mesmo mudas - nem todas, o “P” no Egipto, nunca foi mudo para mim – existem para abrir as vogais e não só para lá estarem.
Recordo um poema que escrevi há uns poucos anos sobre a queda de uma consoante, no caso o “C”, se a uma certa palavra, antiga Arquitecta que ora se escreve Arquiteta, deveria dizer Arquit(ê)ta ou, com a queda do referida palavra “C”, me soaria Arquit(é)ta. É lógico que vão dizer que se continua a dizer Arquitéta mas se ouvirem um brasileiro a falar, ouvirão Arquitêta.
É como com Eugénio ou com António; os brasileiros – e, infelizmente, alguns angolanos de tanto lerem e ouvirem brasileirismos – dizem – e escrevem – Eugênio e Antônio. Pois, só há harmonização quando convém…
E este problema de harmonização começa a levantar muitas dúvidas, mesmo entre políticos e “senadores” académicos. Em Portugal, recentemente, o AO90 foi debatido no Parlamento português, devido a uma petição, com milhares de assinaturas – não só devido à petição, como ao crescente número de pessoas da área da literatura a o exigirem, como Manuel Alegre, por exemplo –, a exigir isso mesmo. Só o facto de a legislatura estar a terminar salvou os deputados de debaterem este – indiscutivelmente – quente assunto que lhes colocaram nas mãos.
Também o Brasil já pondera revogar o AO90. Em Abril passado, um grupo de deputados apresentou e foi aceite pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Brasil que aprovou um requerimento para “realização de Audiência Pública a fim de discutir a revogação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”. Recordo que há uns anos, escrevi um texto no portal Portugal em Linha onde um professor – assim se identificou –, nos comentários a este meu texto (na realidade, escrevi dois e não me recordo a qual deles o comentário se referia e por isso cito de cor) afirmava que não admitia a imposição “neocolonialista dos portugueses” de alterar a língua porque no Brasil “não se falava português, mas brasileiro” e por esse facto “não tinha nada que alterar o que sempre escreveu” (repito, citei de cor, porque não consegui aceder aos referidos comentários).
Cá por mim, e porque a vida são só dois dias e o organismo não me deixa, nesta altura, fazer mais e se o tempo o deixar, vou continuar a aproveitar esta época estival no Hemisfério Norte (sempre com maiúsculas os pontos cardeais, como os meses ), para sentar o Mataco, num qualquer areal à beira-mar aspirando o delicioso ar africano que me vem do Sul, lendo sempre, seja qual for o autor ou o tipo de escrita, um Bom Livro.
É que qualquer que seja o tipo de obra, espectacular ou péssima, é sempre com agrado que registarei bem registrado o seu conteúdo. O que para mim poderá ser meio-desagradável – refiro-me ao conteúdo e tipo do livro – pode, para outros, ser uma refrescante e simpática leitura de fim-de-tarde ou pré-almoço.
Daí que uma leitura acabe sempre por ser boa! Vamos deixar de ser utópicos e compreender, de vez, que já há muito alterámos a escrita e a fonia portuguesa, uma das que une mais Povos, Culturas e Usos e Fusos diversos e diferenciados. Parafraseando um poeta lusófono, acrescentando algo da minha lavra, se a Minha Nação é Angola, a Minha Pátria é a Língua Portuguesa. E onde a ouvir estarei sempre em Casa!
Eu cá, em ternos de escrita, continuo assim. Mas reconheço que se o AO90 vier a ser revogado – ou sujeito a profundas alterações – há já, pelo menos, duas gerações – não esquecer que o AO90 faz 30 anos no próximo ano – que irão sentir os problemas que os que nunca o adoptaram sentem. Principalmente, quando o corrector do Word está, constantemente, a sublinhar a vermelho as palavras que escrevo como esta “corrector”.
Falava-se que a harmonização da escrita Língua Portuguesa visava a adopção pelas Nações Unidas como língua oficial e para que os sistemas operativos de escrita electrónica (ou eletrônica?) tivessem um só corrector, dado os elevados custos que a existência de mais de um sistema de escrita acarretaria quer para a ONU, como para o, passe a publicidade, Word.
Pois, 30 anos depois, nem a ONU adoptou o Português como Língua oficial, ao contrário da União Africana e da antiga OUA, como no Word, o eu dicionário tem: 15 versões de Árabe, 22 de Espanhol, 5 de Chinês, 15 de Francês, 18 de Inglês e, entre outros, 2 de Fula!!!
É só para que conste e os que decidiram pela criação do AO90 – atenção, os que o criaram e não os que o adoptaram, como Jonuel Gonçalves e outros excelentes escritores –, não nos tomem por obtusos…

Publicado no Novo Jornal, edição 595, de 26 de Julho de 2019, página 39

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