Eugénio Costa Almeida

A generalidade dos actuais politólogos e analistas de relações internacionais, caracterizam um Estado como uma potência (local, regional ou global) desde que apresente determinadas e específicas características.


No meu recente ensaio Angola, Potência Regional em Emergência (Colibri, 2011), defino essas características: ou seja, um Estado com capacidade de influenciar, de uma forma organizacional, política, ideológica, económica, militarmente e tecnologicamente ou pela conjugação de parte ou de todos estes valores, uma determinada região geográfica onde se insere ou pode se reflectir.
Angola considerada já, nomeadamente pela potência global (USA/EUA) como uma potência regional ainda apresenta problemas de crescimento e sustentação das suas ingénitas competências.
Algumas desses problemas passam pela caracterização do seu poder potencial. Não é, nem pouco mais ou menos, embora, admita, que alguns dos seus decisores gostassem que fosse olhada assim, é um “hardpower State” como também já passou de mero “softpower State”.
Recordemos que quando estes dois conceitos foram teorizados eram determinados como sendo um Estado com capacidade de impor a sua vontade mediante o recurso à ameaça ou força, mesmo armada (caracterizam-se por serem os Estados decisores com alcance global ou imperativo – hardpower) ou determinam-se por influenciar específica e moderadamente certos sectores geográficos servindo-se do seu poder de convicção e de atracção da vontade alheia (softpower).
Angola não me parece estar enquadrado ainda no patamar mais forte (hard) nem tão-pouco já se fica pelo patamar mais moderado ou intermédio (soft). Angola é uma Estado potencialmente forte na região mas que deseja projectar-se como um Estado para-global.
As suas influências político-militares em STP, nos dois vizinhos do Norte (os Congos) poderiam fazer de Angola uma mera potência regional.
Mas a forma como, durante alguns anos influenciou a vida política e social da Cote d’Ivoire e a recente tentativa de modernização das forças armadas da Guiné-Bissau, através da Misssang, que, segundo os executores (ainda que claramente ocultos), levaram ao Coup d’État no país de Amílcar Cabral, são a prova evidente da pouco discreta política angolana que olha(va) para os potenciais Estados subordinados como meros instrumentos da activa e clara política pré-expansionista de Angola entre aqueles que considera estarem na sua órbita: ou seja, indica ser um instrumentality power State.
O que é e como defino um Estado com capacidade para instrumentalizar a vida política, social e militar dos Estados subordinados, um instrumentality power State?
Inicialmente caracterizei Angola como um potencial parentalpower State, dado que a influência angolana passava por ser mais paternalista e apaziguadora que influenciadora.
Todavia, o modo como se desenvolveram as relações institucionais entre Angola e os Estados subordinados (fossem por interesses meramente políticos e/ou, também, linguísticos), levou-me a interpretá-las como as de entre uma potência intermédia, ou emergente, regional mas com aptidão para projectar a sua importância e capacidade potencialmente decisora em regiões que, não necessariamente, sejam vizinhas, desde que predominem interesses similares, embora sem que se caracterizem por impor a sua vontade mediante o recurso à ameaça ou força, mas de forma convicta ou sugestiva, e sem intervenção por via da ameaça armada.
Ou seja, a discreta política angolana, e desde que não tentassem provocar desvios qualificativos da mesma, olhava para os potenciais Estados subordinados como sendo meros instrumentos da activa e clara política pré-expansionista de Angola entre aqueles que considera estarem na sua órbita. Resumindo, há uma clara instrumentalização do poder político-diplomático de Angola.
Se a influência de Angola em STP e nos dois Congos, apesar de algumas crises, é objectivamente clara, na Cote d’Ivoire e na Guiné-Bissau, registaram-se dois malogros – no último ainda que não totalmente definitivo –, que podem ser associados a uma crise de crescimento do poder instrumentalizador da política angolana, mostrando que esta ainda tem um longo caminho a percorrer para conseguir afirmar a sua importância potencial fora da sua área natural: o Centro-Austral de África.
É que também é preciso contar com a pouco discreta acutilância da franco-anglófona CEDEAO liderada pela Nigéria e Senegal.

Publicado no semanário Novo Jornal, edição 225, de 11-Mai-2012, 1º Caderno, pág. 23

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