Eugénio Costa Almeida

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Quando os leitores estiverem a ler estas linhas já todos saberemos quem terá sido eleito como novo presidente do Senegal, dado que as eleições correram no passado domingo, 24 de Março. Só que, esta linhas estão a ser escritas num momento em que ainda são obscuros, e impossíveis de ter qualquer base de referência, os resultados, dado ainda estar a decorrer o acto eleitoral.
Por esse facto ainda é desconhecido qual o grau de afluência ao acto eeitoral. Mas, apesar destas “inconveniências” religiosas, a maioria dos especialistas eleitorais senegaleses, como El Hadji Saidou Nourou Dia, citado pelo site da rádio Deutsche Welle (DW), acreditam que ter conseguido – como tudo parece indicar pelos primeiros resultados – e uma grande afluência às urnas terá sido um dos maiores desafios, no contexto do Ramadão.
É que estas são as primeiras eleições que ocorrerão durante o Ramadão, no que foi criticado pelo imã de uma mesquita na capital, Dakar, Iman Ndiaye, que defende que o mês sagrado deveria ser respeitado no dia das eleições, porque, será natural que quer no dia das eleições, como nos dias seguintes, haverão manifestações, passeios e “gritarias” no período diário do Ramadão.
Não esqueçamos que o Senegal é, maioritariamente, um país de confissão muçulmana.
A esta eleições concorreram x candidatos distribuídos entre os próximos do cessante presidente Macky Sall (entre 2012 e 2024, que tudo fez para estender a 2025) e os que deste se distanciaram – isto dentro do aparelho governativo –, os adversários habituais e os que foram “cooptados” à última hora com o indulto presidencial de Sall, após os distúrbios que ocorreram no período entre a “tentativa” de manutenção de Macky Sall na presidência – com adiamentos das eleições que deveria ter ocorrido mais cedo.
As eleições deveriam ter ocorrido em 25 de Fevereiro, mas Sall tentou adiá-las por 10 meses – deveriam só ocorrer, no mínimo, em Dezembro –, no que acabou impedido por decisão do Conselho Constitucional (CC) que determinou a marcação imediata das eleições.
Sobre esta matéria, e para não tornar este texto maçudo proponho-vos que leiam o meu texto «O Senegal confiscado por Macky Sall e o “desimpacto” das iniciativas externas», publicado na edição 825, de 23 de Fevereiro passado, onde faço uma “estoriografia” deste pré-acto eleitoral.
Sabe-se que ao acto, estão registados 19 candidatos que tiveram pouco mais de duas semanas para convencer os mais de 7 milhões de eleitores registados.
Entre os 17 candidatos, há 5 que se destacam, principalmente:
• o candidato do regime, ou seja, escolhido por Sall, o até há pouco primeiro-ministro Amadou Ba, de 62 anos, que abandonou o cargo para fazer campanha para a presidência, sob o lema “Prosperidade Partilhada” – de notar que, segundo site “Africa Inteligence”, na última semana de campanha, este candidato terá contado com o discreto apoio de comunicadores – assessor, propagandista, marqueteiro, ou como se diz agora “influencers” – franceses e senegaleses, que estariam a ser apoiados pelo “spin doctor” -manipulador de resultados, estatísticas e informações desvirtuadas – israelita Aron Shaviv, fundador e CEO da Vantage Influence, uma empresa de consultoria internacional com sede em Dubai , e antigo comunicador de Benjamin Netanyahu, por sinal muito activo no continente Africano; e
• Bassirou Diomaye Faye, do partido PASTEF que, na sua campanha, prometeu “dar forte luta” nestas eleições. O inspetor fiscal de 49 anos era relativamente desconhecido até ser apoiado por Ousmane Sonko, que foi impedido de concorrer devido a uma condenação por difamação, entretanto amnistiado mas já sem condições de poder se candidatar – ainda que o CC tenha determinado que os amnistiado, poderiam fazê-lo –, pelo os seguidores de Faye, esperam que o apoio de Sonko seja visto como um sinal de esperança, uma vez que este político da oposição é muito popular entre os mais jovens, frustrados com a falta de emprego. Entretanto o candidato Cheikh Tidiane Dieye, na última semana de campanha, desistiu a favor de Faye o que permite aumentar as expectativas deste principal candidato oposicionista a uma vitória eleitoral;
• Além do antigo primeiro-ministro Idrissa Seck, que ficou em segundo lugar em 2019; Khalifa Sall, por duas vezes presidente da câmara de Dakar; e a empresária Anta Babacar Ngom, de 40 anos, a única mulher a concorrer ao acto eleitoral.
Sendo que o Senegal, desde a sua independência, em 1960, tem realizado eleições regulares, nunca foi alvo de um golpe de Estado e tem sido visto como um exemplo de democracia e estabilidade na região, apesar da crise política que Sall criou e provocou, é de esperar que, apesar de tudo, as eleições tenham decorrido com um espírito de «um escrutínio pacífico, honesto e transparente» como preconizava, ao site da DW, Djibril Gningue, directo-executivo da “Plataforma da Sociedade Civil para a Transparência das Eleições no Senega”l, no que, citando o site da adio France Internationale (RFI), foi secundado por Mamadou Mbodj, coordenador da “Plataforma F24”.
No final do dia do acto eleitoral que tudo indicou decorreu normalmente e com boa afluência, há a destacar a menor afluência na região de Ziguinchor, na conturbada área de Casamanse, região fronteiriça a Guiné-Bissau, em particular no período da tarde; nesta região votou aquele que sempre foi considerado o maior opositor das políticas de Sall, Ousmane Sonko, recorde-se apoiante de Faye. Segundo alguns observadores eleitorais, citados pela RFI, esta menor afluência teria sido devido ao facto de o país estar no Ramadão e a área ser muito quente…
De uma coisa os senegaleses manifestam ter uma certeza: o próximo presidente vai ter de reestruturar a vida política interna, melhorar a economia, procurar diminuir o desemprego, em particular o desemprego jovem – um dos maiores problemas por que passam a maioria dos países e políticos do Continente Africano – e tentar que o fluxo migratório seja diminuído.
A estes factos com que se vai debater o novo presidente, há que acrescentar, em termos diplomáticos e securitários, reafirmar a posição do Senegal no concerto regional, em particular na da organização regional CEDEAO, tenho em conta que o Senegal – como já atrás se deixou implícito – continua muito próximo da França e da “france-afrique” e há um crescente mal-estar entre países da CEDEAO, nomeadamente, Burkina Faso, Mali e Níger, quer criaram o rupo de Países do Sahel e que desejam sair da CEDEAO, e da República da Guiné – de recordar que Conaky, desde Sékou Touré, se mostrou sempre distanciada de Paris -
Outro facto importante e que não se deve menos graduar, prende.se com Bissau e com o seu presidente Sissoco Embalo, dado que este sempre manteve uma forte proximidade com Sall. As recentes afirmações de Embalo sobre críticos, mostra que pode já estar a começar a sentir que Dakar, independentemente do vencedor, poderá alterar algumas das políticas “demasiado” proteccional e “narcisista” de Macky Sall sobre e relativo a Bissau. Veremos…

Publicado no Novo Jornal, edição 830, de 29.Mar.2024, pág. 7

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