NJ867 20241213 Mocambique e Siria curto

À partida, Moçambique e Síria parece que nada têm a ver um com outro. Um em África (Moçambique) e outro (Síria) no Levante árabe (península arábica ou Próximo Oriente. Médio Oriente é para os norte-americanos…). Um é uma questão eleitoral; outro é o resultado e uma rebelião com décadas. Só que ambos têm populações com esperanças iguais: serem governadas com verdade, liberdade e transparência.


A crise pós-eleitoral de Moçambique, de 9 de Outubro de 2024, que vem ocorrendo desde que a CNE, em 24 desse mês, deu entender que Chapo e a Frelimo seriam os vencedores, o que levou à contestação dos resultados eleitorais e está marcada pela ascensão de figuras como Venâncio Mondlane, apoiado pelo partido Podemos, traz à tona um cenário de instabilidade política e social que reverbera além das fronteiras do país. Mondlane, que se apresenta como o verdadeiro vencedor das eleições, tem mobilizado a população em uma "revolta" contra o que considera um sistema autocrático e corrupto, alimentando um clima de insatisfação que ecoa os anseios de mudança em outros países emergentes sob regimes semelhantes.
A insurreição de Mondlane não ocorre em um vácuo. Apesar de Angola ser o país que, oficialmente, já deu credibilidade aos resultados apresentados pela CNE moçambicana –ainda sob escrutínio da Conselho Constitucional que continua a aguardar que a CNE apresente documentos solicitados e que se mantém “ocultos” – a SADC está expectante, até segundo o secretário executivo desta ORA austral africana, Elias Magosi, não era “previsível a deterioração do processo eleitoral” em Moçambique, como está a acontecer e segundo o jornal zimbabweano The Zimbabwe Mail, “tem vindo a afectar as relações na região”. Não é em vão que a SADC, pondera avançar com um possível mediador para a resolução desta crise, como constatou o jornalista Privilege Musvanhiri, da rádio alemão DW e correspondente em Harare, Zimbabwé, após uma reunião extraordinária da SADC, nesta cidade.
Ora, nesta reunião extraordinária de Chefes de Estado e de Governo só participaram 4 presidentes – os de Moçambique, Filipe Nyusi, da RDC, Félix Tshisekedi, de Madagáscar, Andry Rajoelina, e o recém-eleito Presidente do Botsuana, Duma Boko –. Os outros Estados-membros fizeram-se representar por delegações de nível ministerial, o que, de acordo com a linha de pensamento de Walter Mzembi, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros zimbabueano, isto significará um envio de uma mensagem ao presidente do Zimbabué, Emmerson Mnangagwa, nomeadamente, alertando que “os líderes regionais estão a pedir ao Zimbabué que resolva as questões de interferência nos assuntos internos dos estados-membros”. É que, segundo Mondlane, e tudo parece conjugar que isto não será falacioso, no círculo eleitoral do Zimbabué terão votado cerca de 300 mil zimbabweanos sem capacidade eleitoral.
Entretanto, num outro quadrante continental, e em pouco mais de uma semana, um regime ditatorial de cerca de 50 anos, caiu com estrondo. O regime do presidente sírio Bashar al-Assad, apoiado pela Rússia e pelo Irão e Hezbollah, não aguentou um maremoto que, após quase 15 anos de “estabilidade”, começou em Alepo e terminou na madrugada de domingo, 8 de Dezembro, com a entrada triunfa dos rebeldes anti-al-Assad, liderados por Abu Mohammed al-Jawlani, do grupo Hayat Tahrir al-Sham (ou “Vida Livre no Sham” [este é uma área geográfica do Levante]),em Damasco, levando à fuga de al-Assad para Moscovo, onde solicitou asilo político.
A situação síria ainda é turva e não se sabe como os novos poderes – que não ocupam a totalidade o país, já que há curdos no Norte, bolsa do Daesh espalhados e outros grupos rebeldes no Sul – vão governar. Se seguirão uma conduta baseada na sharia ou se vão aceitar o regime “livre” que existia na sociedade multicultural e multi-religiosa?
Ora, e como comecei, estes dois factos, à partida que parecem sem ligação entre si, podem servir de catalisador a movimentos semelhantes em nações onde a opressão política e a falta de representatividade são a norma. A queda de uma figura emblemática como al-Assad, que governou com mão de ferro por mais de uma década, pode inspirar tanto as populações dos países autocráticos, quanto os líderes de oposição em países como Moçambique a desafiar sistemas autocráticos. A dinâmica de poder nesses contextos é complexa e interligada, onde a luta por liberdade num país pode incitar revoltas noutro.
O impacto da crise moçambicana e da revolução síria sobre outros países emergentes sob dependência autoritária ou similar é multifacetado. Por um lado, pode haver um aumento da pressão popular por mudanças democráticas, já que cidadãos em nações sob regimes autocráticos veem a possibilidade real de transformação em seus próprios contextos. Por outro lado, a instabilidade pode ser aproveitada por forças conservadoras e autocráticas que, temendo por sua sobrevivência, intensificam a repressão e a silenciamento de vozes dissidentes. O estado de emergência ou o uso da força podem se tornar respostas comuns para a manutenção do controle, levando a um ciclo de violência e repressão.
A gestão desses conflitos exige um equilíbrio delicado entre a vontade popular e a necessidade de estabilidade. As populações devem ser capazes de articular suas demandas de maneira pacífica e organizada, utilizando plataformas sociais e políticas para expressar suas insatisfações. A mobilização social, quando bem coordenada, pode resultar em pressões significativas sobre os governos, forçando alterações ou reformas que atendam às necessidades da população.
Não esqueçamos que a história tem mostrado que regimes que ignoram o clamor popular frequentemente enfrentam consequências desastrosas, como o colapso total de suas estruturas de poder, como o caso da Síria.
O problema complementar é que a supressão de regimes autocráticos e ou, ditatoriais, não levem a situações como as que ocorrem na Somália, na Líbia, em África, ou no Iraque, no Levante árabe. Grupos impõem-se a Governos oficiais [in]estabelecidos. É que há sempre interesses que se sobrepõem…

Publicado no semanário Novo Jornal, edição 867, de 13.Dezembro.2024, pág. 37

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