No mês que vamos entrar, Maio, o mês de África, e 62 anos após a fundação da Africanidade, consubstanciada na fundação da Organização de Unidade Africana (OUA), em 25 de Maio de 1963, antecessora da actual União Africana, persistem demasiados conflitos político-militares no nosso
Continente. Alguns são sobejamente conhecidos e comentados. Outros, parece que alguém deseja mantê-los no esquecimento, como os da Somália e, em particular por ser o que vai ser analisado, o do Sudão.
Introdução
Em 2025, a situação político-militar no Sudão continua a ser uma das crises mais negligenciadas pela comunidade internacional e pelos meios de comunicação social internacionais. O país, que já enfrentou décadas de conflito, continua a viver uma realidade de instabilidade e de um permanente estado de turbulência exacerbada, caracterizado por um complexo emaranhado de actores políticos e militares, por ininterruptas tensões étnicas, por disputas pelo poder e uma luta contínua por recursos. Neste sentido, tentarei explorar a situação actual, destacando os principais players e grupos envolvidos, bem como a intervenção da Rússia, que tem procurado, e cada vez mais, expandir sua influência na região, seja por via política, como económica, com os recentes benefícios que parecem advir da utilização do porto de Bur-Sudan (Porto Sudão), na entrada do Mar Vermelho.
Contexto Histórico Recente
O Sudão tem uma longa história de conflitos que remontam à sua independência em 1956. Desde então, o país passou por várias guerras civis, tensões étnicas, como a iniciada – e nunca terminada, mas esquecida –, em 2003, ocorrida em Darfur, onde as tensões intestinas resultaram em uma grave crise humanitária, ou, mais recentemente, em 2011, a divisão que resultou na criação do Sudão do Sul, mas que não resolveu os problemas que afligem o país, que continuam a ser alimentados por persistentes rivalidades políticas e étnicas.
A transição política que se seguiu à deposição do presidente Omar al-Bashir, em 2019, trouxe esperanças de reforma, mas rapidamente se esvaiu no meio da instabilidade e da violência subsequentes, facto que, ainda hoje, em pleno 2025, o Sudão ainda se vê preso entre as forças que buscam a mudança e aquelas que desejam manter o status quo. A luta por recursos, o sectarismo étnico e a manipulação política contribuem para o contínuo e persistente ambiente de conflito.
Neste sentido, e antes de entrar no tema em questão, vejamos que, nos terrenos, político, social e militar florescem neste conflito.
Principais Actores Políticos e Militares
1. Abdel Fattah al-Burhan
O general Abdel Fattah al-Burhan, líder do Conselho Soberano e comandante das Forças Armadas do Sudão (Sudanese Armed Forces – SAF), que depôs e substituiu al-Bashir, é uma das figuras centrais na política sudanesa actual. Desde a sua ascensão ao poder, ele tem enfrentado a resistência de movimentos de oposição e de grupos civis, ainda que haja quem veja nele um possível estabilizador em meio ao caos.
2. Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti)
O, oficialmente, vice-presidente do Conselho Soberano, mas que está fora deste, Mohamed Hamdan Dagalo, ou Hemedti, é o líder das milícias anti-governamentais Forças de Apoio Rápido (Rapid Support Forces – RSF), que, persistentemente e conforme as fontes, têm sido acusadas de graves violações de direitos humanos, especialmente em áreas onde os conflitos étnicos, como Darfur, pro exemplo, ocorrem. Hemedti tem procurado solidificar seu poder e influência nas áreas já ocupadas pelas RSF.
3. Movimentos de Oposição
Os movimentos de oposição – que, na realidade, mais que movimentos político-sociais, também são milícias armadas, mas de menor influência e poder bélico em particular, o Movimento por Justiça e Igualdade (JEM) e o Exército de Libertação do Sudão (SLA), continuam a lutar por uma representação significativa e por direitos para as comunidades marginalizadas. Esses grupos, em sua maioria, são compostos por populações do Darfur e de outras regiões marginalizadas, que se sentem excluídas dos processos políticos.
4. A Comunidade Internacional
A resposta da comunidade internacional ao conflito no Sudão tem sido amplamente criticada pela falta de eficácia que vem demonstrando. Organizações como a ONU e, ou, a União Africana (UA) têm tentado mediar a paz, sem que as suas intervenções se mostrem suficientes e válidas. Estamos em 2025 e o Sudão ainda mostra requerer da atenção da Comunidade Internacional e, principalmente dos media, porque, muitas vezes, é esta que “gere a leitura dos conflitos”, em especial, em comparação com outras crises regionais e globais.
Conflitos Recentes e Crises Humanitárias
Como já referido quer na Introdução, quer no Contexto histórico, a situação humanitária no Sudão, em 2025, perdura crítica. Os conflitos armados e a repressão política resultaram numa crise de movimentações populacionais em larga escala, com milhões de sudaneses (sobre)vivendo como refugiados ou deslocados quer dentro do país, quer em países limítrofes. Vejamos, sinteticamente, alguns destes casos:
1. Darfur
O conflito em Darfur continua a ser uma fonte de instabilidade. Apesar de vários acordos de paz, a violência entre grupos étnicos e a repressão governamental persistem. As RSF, em especial e como já referido, bem como as forças governamentais, têm sido acusadas de abusos sistemáticos contra civis, exacerbando a crise humanitária e pondo em causa a maioria dos apoios humanitários que chegam do exterior;
2. Deslocamento e Refugiados
E se Darfur é um dos factores que levam à existência de um número elevado – cerca de uma centena de milhar – de deslocados, na realidade, o número de deslocados da população sudanesa estima-se que milhões de pessoas. A falta de acesso a alimentos, água potável e serviços de saúde tem levado a um aumento significativo na mortalidade, especialmente entre crianças e populações vulneráveis.
Nesse sentido, a resposta humanitária no Sudão tem sido pouco mais que desajustada e ineficaz. É certo que Organizações não governamentais (ONG) e agências da ONU têm procurado, dentro das limitações que o conflito provoca, oferecer alguma assistência, mas enfrentam desafios significativos, incluindo acesso limitado às áreas afectadas pela crise político-militar e pela insegurança generalizada.
3. Presença da Rússia
A Rússia tem intensificado seu envolvimento no Sudão ao longo dos últimos anos, buscando não apenas expandir sua influência, mas também garantir interesses estratégicos e económicos, e particular na exploração de recursos naturais, incluindo petróleo e minerais, aproveitando a instabilidade política para garantir contratos favoráveis, sem esquecer a sua participação em procjetos de infra-estrutura, como estradas e barragens, além, mais recentemente, poder ter uma presença civil e militar em Bur-Sudan, – na linha do que já existe em Djibuti, com franceses, norte-americanos e chineses –, o que lhe permitirá controlar a rota do Mar Vermelho.
Além disso, acresce que a Rússia tem tido uma movimentação dúbia no que tange à questão militar, porque tanto tem fornecido apoio militar, incluindo treinamento como venda de armamentos, às forças armadas governamentais como às milícias locais, o que confere e assegura à Rússia, qualquer que seja o vencedor do conflito, aliado à presença em Bur-Sudan, ser um aliado estratégico na África, e em especial, a Rússia ganha uma posição geopolítica mais forte na região.
Perspectivas Futuras
Indiscutivelmente, a situação actual no Sudão continua volátil e incerta. As rivalidades entre as forças políticas e militares, combinadas com a influência externa da Rússia – bem como, e há que o referir, de outras potências externas –, tornam difícil prespectivar um claro caminho para a paz. A necessidade de um diálogo inclusivo e de reformas significativas é mais urgente do que nunca.
Ora, para isso, há que ter em conta que os cenários para o futuro do Sudão variam. Um aumento da violência e da repressão pode levar a uma maior escalada do conflito, enquanto um movimento em direcção à paz poderia ser o ideal desde que houvesse pressões internacionais e um compromisso genuíno de todas as partes. E para que isto possa acontecer, a Comunidade internacional tem de ter um papel importante e decisivo, agindo com mais determinação. O apoio a processos de paz, a imposição de sanções a violadores de direitos humanos e o fortalecimento das capacidades da sociedade civil são passos cruciais que podem ajudar a mudar o curso da crise.
Apesar da ambiguidade política e militar da Rússia, esta pode ser um importante player na região, e a forma como essa influência se desenvolverá será o factor que definirá qual o impacto significativo que terá no futuro do Sudão e nas dinâmicas de poder na África.
Conclusão
A situação político-militar no Sudão representa um dos conflitos mais negligenciados do mundo. Com uma complexa interacção entre líderes militares, grupos de oposição e a influência de potências estrangeiras, em particular, a Rússia, o futuro do Sudão permanece incerto. A necessidade de uma resposta internacional eficaz e de um compromisso com a paz é mais urgente do que nunca.
Resumindo, mais como consideração final do que uma conclusão, este pequeno ensaio, tentou fornecer uma pequena visão abrangente da situação actual no Sudão, destacando a complexidade do conflito e a necessidade de uma maior atenção internacional, em particular da Comunicação Social.
Algumas referências bibliográficas
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Publicado no semanário Novo Jornal, ed. 885, de 2.Maio.2025, pág. 19

