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NJ.: Qual é a espectativa da realização da Cimeira Estados Unidos-Africa em Luanda?

ECA: No geral a expectativa é de que a Cimeira seja uma oportunidade importante para fortalecer os laços diplomáticos, económicos e de cooperação entre os Estados Unidos e os países africanos, mesmo tendo em conta as opiniões voláteis do senhor Trump.


Espera-se que o evento promova o diálogo sobre temas cruciais como desenvolvimento sustentável, segurança, comércio, investimentos e combate às mudanças climáticas – ainda que este não seja um item do agrado do actual inquilino da Casa Branca –, além de fortalecer parcerias estratégicas na região. A cimeira também deve proporcionar uma plataforma para discutir formas de apoiar o crescimento económico africano, promover a estabilidade e aprofundar a colaboração em áreas de interesse mútuo.
Por outro lado, a realização da Cimeira em Luanda destaca a importância crescente da África, em geral, e de Angola, em particular, na agenda internacional e o interesse dos EUA em consolidar relações mais próximas com o continente, apesar, repito das contínuas e voláteis opiniões que Donald Trump vai emitindo sobre o continente africano, como provam as recentes proibições de acolhimento a nacionais dalguns países.
NJ.: Que ganhos o país poderá ter com a realização deste evento?
ECA: A realização da Cimeira África-EUA pode trazer diversos ganhos para Angola, incluindo:
Fortalecimento de Laços Diplomáticos: A cimeira oferece uma oportunidade para Angola fortalecer suas relações diplomáticas com os Estados Unidos, promovendo diálogo e cooperação em várias áreas.
Acesso a Investimentos e Apoio Económico: Como um dos países mais importantes da África Austral, Angola pode atrair investimentos americanos em sectores estratégicos como petróleo, gás, energia renovável, agricultura e infraestrutura, nomeadamente, o reforço do investimento no Lobito Atlantic Railways.
Transferência de Tecnologia e Conhecimento: A parceria com os EUA pode facilitar a transferência de tecnologia, inovação e capacitação, contribuindo para o desenvolvimento de sectores-chave em Angola.
Promoção da Segurança e Estabilidade: A cooperação em questões de segurança, combate ao terrorismo, tráfico de drogas e crimes transnacionais pode beneficiar Angola na manutenção da estabilidade interna e, em complemento, no Golfo da Guiné.
Apoio em Programas de Desenvolvimento: Através de programas de ajuda ao desenvolvimento, educação, saúde e capacitação técnica, Angola pode avançar em seus objectivos de desenvolvimento sustentável.
Ampliação de Parcerias Regionais e Globais: A participação na cimeira reforça a posição de Angola no cenário internacional, possibilitando reforço de alianças estratégicas e maior influência em assuntos globais e regionais.
Promoção do Comércio e Integração Económica: A cimeira pode e deve abrir portas para acordos comerciais e parcerias económicas que beneficiem não só a economia angolana, como a economia africana, no geral, promovendo maior integração com mercados internacionais.
Em suma, a realização da Cimeira África-EUA representa uma oportunidade para Angola impulsionar o desenvolvimento económico, fortalecer sua posição internacional e promover a cooperação em áreas essenciais para seu crescimento sustentável.
NJ.: O facto do encontro ser realizado em Angola não vai criar “ciúmes” políticos junto de grandes potências como a Rússia, China, entre outros?
ECA: Naturalmente que poderá gerar pode gerar diversas reacções no cenário internacional, mas não necessariamente criar “ciúmes” políticos por parte de grandes potências como Rússia ou China. Essas nações tendem a avaliar eventos diplomáticos com base em seus interesses estratégicos, económicos e políticos.
Ainda assim, é sempre de esperar algum “olhar de viés” quer de Moscovo, quer de Beijing, tenho em conta quer a dívida angolana junto destes, quer os investimentos que, principalmente, chineses, têm em alguns países africanos e temerem que esses investimentos possam ser “aproveitados” pelos norte-americanos e as dívidas subsequentes sejam pagas nas “calendas gregas”.
Em qualquer dos casos, repito o que afirmei anteriormente. Tanto a China – principalmente esta – como a Rússia tendem a avaliar eventos diplomáticos com base em seus interesses estratégicos, económicos e políticos.
NJ.: E porque Angola e não outro país do continente?
ECA: A escolha de Angola como país anfitrião para uma cimeira África-EUA pode estar relacionada a vários factores estratégicos, políticos e diplomáticos. Entre as possíveis razões estarão, certamente:
Uma efectiva Estabilidade Política e Segurança que Angola tem demonstrado relativa estabilidade política e segurança, fatores importantes para sediar eventos de alto nível internacional;
Nas Relações Diplomáticas, Angola tem mostrado ter uma relacção diplomática activa com os Estados Unidos e outros países, podendo actuar como um mediador ou facilitador de diálogos entre a África e os norte-americanos;
Angola apresenta um Potencial Económico e Recursos Naturais significativos, nomeadamente como um dos maiores produtores de petróleo e recursos naturais na África, oferecendo oportunidades de cooperação económica e de investimentos que podem ser destacadas na cimeira.
Proximidade Geográfica e Infraestruturas: A infraestrutura e a posição geográfica de Angola podem facilitar a organização do evento e a participação de delegações internacionais;
Uma Visibilidade e Influência Regional, com que Angola procurará procurar fortalecer a sua posição na cena internacional, ao sediar uma cimeira desta relevância global, já que é uma oportunidade para aumentar sua influência dentro do continente africano;
Naturalmente que cada evento dessa magnitude envolve sempre uma combinação de factores diplomáticos, estratégicos e logísticos, pelo que a escolha do país-sede reflecte uma decisão ponderada nestes elementos. E Angola apresenta essa capacidade.

10.Junho.2025

Publicado extratos no semanário Novo Jornal, edição 892, págs. 6-7, de 20.Junho.2025, com o título «EUA 'trava' hegemonia da Rússia e da China no continente africano»

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