NJ923-yxy-curto.pngA trajetória das nações é frequentemente definida por instantes de ruptura que condensam, em poucas horas, décadas de aspirações sufocadas, injustiças acumuladas e o desejo incontornável de liberdade.
Para Angola, esse instante cristalizou-se na madrugada de 4 de Fevereiro de 1961. Hoje, ao celebrarmos cinco décadas de Independência Nacional, olhar para trás não é – e não deverá ser – um exercício de nostalgia estéril ou uma mera formalidade do calendário oficial, mas um acto de soberania intelectual e política. O assalto às prisões de Luanda – a Casa de Reclusão, a Cadeia da PIDE e a Sétima Esquadra – não foi apenas uma operação miliciar de alcance táctico; foi o parto doloroso de uma identidade política que se recusava, de forma definitiva, a aceitar a invisibilidade e a desumanização impostas pelo sistema colonial português.
A preservação da memória histórica do 4 de Fevereiro deve ser entendida como o pilar central da nossa ontologia nacional. Ao valorizarmos esta data como o marco fundador da Luta de Libertação Nacional, fazemos justiça àqueles que, munidos de catanas e de uma audácia que desafiava a lógica da força bruta, enfrentaram o mito da “paz colonial”. Aqueles homens e mulheres representavam o ápice de um nacionalismo que já não cabia nas estruturas de exploração da então chamada Metrópole. Prestar-lhes homenagem, reconhecendo o seu sacrifício, a sua coragem e o seu contributo decisivo, é um dever que transcende gerações. Foi o sangue ali vertido, nas ruas de Luanda, que regou a consciência de que a independência não era apenas um sonho possível, mas uma necessidade histórica imediata.
Contudo, a celebração deste cinquentenário exige que os valores fundamentais daquela luta – a liberdade, a auto-determinação, a unidade nacional, a dignidade humana e a justiça social – deixem de ser apenas conceitos abstractos inscritos em manuais e passem a ser realidades tacteáveis na vida de cada angolano. A dignidade humana, pilar do discurso daqueles pioneiros, deve servir hoje de régua e esquadro para medir a qualidade da nossa democracia e o sucesso das nossas políticas públicas. Não basta termos a bandeira, o hino e o assento nas instâncias internacionais; é imperativo que a estrutura do Estado reflicta a inclusão social e a justiça económica pelas quais os nacionalistas de 1961 se bateram. A soberania política, conquistada com tanto esforço, só atinge a sua plenitude quando se traduz em soberania económica e na garantia de direitos fundamentais para todos os cidadãos, de Cabinda ao Cunene, do Lobito ao Luau.
Aqui entra o papel crucial da educação cívica e histórica, especialmente junto das novas gerações. É uma preocupação legítima que, para muitos jovens nascidos no período de paz, o 4 de Fevereiro seja visto apenas como uma data de feriado, um evento distante em livros de texto ou uma data partidária. Precisamos de uma pedagogia que incentive o conhecimento crítico da História de Angola.
A História, e no nosso caso, a História de Angola, não deve ser ensinada como uma sucessão de nomes e datas mortas, mas como um processo vivo de construção de identidade. A juventude deve compreender que a Liberdade não é uma realidade estática, mas um bem que exige vigilância constante e compromisso ético. Ao fortalecer o conhecimento sobre as raízes da nossa resistência, fortalecemos a própria Identidade Nacional contra as pressões de um mundo globalizado que muitas vezes dilui as particularidades culturais e históricas dos povos africanos.
Estimular a reflexão sobre o legado do 4 de Fevereiro obriga-nos a um confronto honesto entre os ideais que nortearam a luta de Libertação Nacional e os desafios actuais. A consolidação da paz e da democracia, alcançada após décadas de conflito interno, é o melhor tributo que podemos prestar aos heróis de 1961.
No entanto, o desenvolvimento sustentável surge agora como a nova fronteira da libertação. Não há liberdade plena onde subsiste a pobreza extrema, onde o acesso à educação de qualidade é limitado ou onde as oportunidades de progresso são distribuídas de forma desigual. O espírito do 4 de Fevereiro, marcado pela unidade de propósitos, deve ser recuperado para enfrentarmos as “batalhas da paz”: a diversificação económica, a transparência na gestão da coisa pública e a protecção dos mais vulneráveis.
O fortalecimento do sentimento de unidade e coesão nacional é, talvez, o desafio mais premente da nossa contemporaneidade. O colonialismo tentou, durante séculos, dividir os Povos Angolanos através de linhas etno-linguísticas e geográficas. O 4 de Fevereiro provou que a união em torno de um ideal comum é a força mais poderosa de uma nação. Envolver as instituições, as comunidades tradicionais, a sociedade civil e a nossa vasta diáspora na preservação da memória colectiva é fundamental para evitar retrocessos.
A diáspora angolana, em particular, transporta consigo o nome de Angola pelo mundo e deve ser vista como um braço activo na construção desta memória e no fortalecimento da nossa imagem externa. A coesão nacional não significa uniformidade de pensamento, mas sim um consenso inabalável sobre o respeito pelas instituições e pelo destino comum que partilhamos.
Ou seja, o reforço do compromisso institucional com a soberania nacional e a defesa dos interesses do Estado deve ser a bússola de todos os servidores públicos. Uma Angola cada vez mais justa, inclusiva e próspera é a única homenagem real e duradoura que podemos prestar aos heróis de 1961. Cinquenta anos depois da independência, o eco daquelas catanas ainda ressoa, não como um apelo à violência, mas como um lembrete constante de que o destino de Angola pertence exclusivamente aos angolanos, como está consagrado na Flâmula Nacional. A soberania defende-se com diplomacia, com inteligência, com produção interna e com a protecção dos nossos recursos naturais e humanos.
Em suma, o 4 de Fevereiro de 1961 permanece como o farol que ilumina o caminho da República. Ao celebrarmos este marco, reafirmamos que o espírito de resistência e o amor à pátria são os ingredientes necessários para superarmos qualquer crise. Que a memória histórica nos sirva de lição e inspiração. Se fomos capazes de derrubar um império em condições tão adversas, somos certamente capazes de construir uma Nação que seja um exemplo de justiça e desenvolvimento para todo o continente africano. A memória dos nossos heróis vive na nossa vontade de continuar a transformar Angola numa terra de paz, de pão e de liberdade para todos, honrando o passado para garantir o futuro das gerações que ainda hão de vir.

Publicado no Novo Jornal, ed. 923, de 6-Fevereiro-2026, página 31 (aceder ao pdf do artigo via Novo Jornal ou na imagem superior)
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