Eugénio Costa Almeida

Na Líbia tudo está como está e deve estar para sossego de certas mentalidades políticas…


E o Mundo anda calado; o coronavírus tudo ocupa nos média internacionais. Por isso, a questão na Líbia está nos confins – bem muito fundo – dos interesses mediáticos do Ocidente, em particular, dos seus vizinhos europeus…
Primeiro, derrubaram – e bem – um déspota, depois tornaram o país num caos, a seguir colocaram um Governo no poder, sem apoio ou “certificação” nacional – o GAN (Governo de Acordo Nacional), com reconhecimento da ONU – e, por fim, deixaram que os vários clãs de digladiassem entre si, talvez à espera de ver a quem iam “ajudar”, mais tarde, nos despojos.
Só que, como tem sido, recorrentemente, nos últimos tempos, os líderes mundiais têm falhado nas suas previsões. E os africanos também não têm – nada têm – ajudado. Calado, ou docemente flautando para o ar.
Há factores – leia-se, diplomacias paralelas, – que têm de ser tidos em conta. Por exemplo, quando há intervenção directa e objectiva de potências como a Rússia, que tenta um cessar-fogo, e a Turquia – um por causa de apoios económicos, tecnológicos e militares; o outro, pelas mesmas razões, acrescidas de um suporto religiosos – em África assobia-se para o ar, e na Europa tudo passa convenientemente despercebido – o problema dos refugiados na Turquia a isso os obriga…
Quando a situação parecia ter harmonizado a contento de todas as partes, o Ocidente e a ONU, numa reunião com os litigantes, em 2015, na cidade marroquina de Skhirat, colocaram no poder um Governo de Unidade Nacional (o GAN), liderado por Fayez al-Sarraj, estacionado em Trípoli, a capital. Só que em Benghazi, província de Cirenaica, no Lesta da Líbia, onde tudo tem começado, um grupo rival, liderado pelo general Khalifa Haftar, tem mantido uma guerra contra o GAN e os seus apoiantes, com cada vez mais proximidade da capital e ataques ao aeroporto, acrescido de encerramento dos terminais petrolíferos.
Para ajudar, na área estão parqueados grupos rebeldes sudaneses e chadianos que reforçam a tensão na área. prefeito de Sebha, capital de Fezzan, região sul da Líbia, denominou esta presença como “ocupação estrangeira” que procura tirar o máximo proveito das tensões nacionalistas em torno desta “ocupação”, «jogando de seus músculos no sul do país, onde ele está lentamente fortalecendo sua presença» (Le Monde), e, com isso, ajudando a uma certa deflagração do País.
A situação crítica, que levou a intervenção e Erdogan na Líbia, justificando que o problema não se resolve “por meios militares” – mas apoia, declaradamente e com armas, uma das partes (Público), o governo de Sarraj, porque este pagaria essa ajuda com a produção e exportação do petróleo (Jornal de Negócios), por parte do GAN –, não ajuda a clarificar a situação. Nem a presença turca, nem a presença russa, nem a presença, periódica de exercícios navais em águas líbias, levadas a efeito por navios da União Europeia (UE), onde perdura uma total desunião quanto a este conflito.
A mais recente tentativa de ajudar a resolver o conflito, ocorreu em Janeiro este ano, em Munique, com a tentativa de declarar um embargo total de venda de armas aos diversos grupos em conflito. Mas as palavras da enviada especial da ONU para a Líbia, Stephanie Williams, após a reunião, parece que ter dito tudo sobre esta mais uma tentativa de resolução: “O embargo de armas se tornou uma piada” (Deutsche Welle).
De facto, nem o embargo de venda de armas, nem a presença de forças navais europeias para evitar a entrada de armas na Líbia (Observador), parece estar a fazer alguma coisa. Tudo uma farsa…
A situação no País, é calamitosa. O Estado de Malta já solicitou aos seus parceiros da UE que “seja lançada uma ação urgente que evite um desastre humanitário na Líbia – onde existem cerca de «650 mil pessoas estão a tentar alcançar a Europa» –, país atingido pela guerra civil, naufrágios de refugiados e pela epidemia do novo coronavírus” (Observador). Mas a Europa, nesta altura, só olha para o seu umbigo, deseja que a Turquia não lhe encha de refugiados, e esquece os seus deveres e o que ajudou a criar…
Na semana que terminou, em Abril, o líder cirenaico decidiu declarar assumir a direcção do País, assumindo que é uma vontade explícita do seu Exército – o Exército Nacional Líbio (ENL) – e um mandato do Povo Líbio (Jornal de Angola). Trípoli já proclamou que esta declaração de Haftar é um Golpe de Estado contra o Governo legítimo da Líbia e aguarda que o Ocidente faça o mesmo. Mas…
Mas, também noutras paragens do Continente, outras declarações destas, foram, de início, criticadas e, mais tarde, aceites. Será a Líbia mais um caso destes?
Se recordarmos que tanto a Argélia, que tem uma fronteira terrestre de cerca de 1000 km, como Marrocos, mantêm uma equidistância entre as partes litigantes. O Sudão, e o Chade – que estão no interior líbio – têm problemas internos que chegue para serem parte interessada. O resto do continente divaga, docemente, entre a pobreza e a subnutrição, entre os desvarios políticos e a corrupção, entre os refugiados externos e internos, entre as doenças endémicas e o coronavírus.
Um mês de África muito preocupante. Como habitualmente…

Publicado no Novo Jornal, edição 634, de 08.Maio.2020, pág. 37

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