Eugénio Costa Almeida

2005 Craveirinha Joao E a Pessoa de Fernando Ignorou África

Saudação

Quero, em primeiro lugar, agradecer a honra que o autor, João Craveirinha (JC), me concedeu ao convidar para efectuar a Apresentação da obra que hoje é lançada “E a Pessoa de Fernando Ignorou África?”; uma peça de Teatro que o autor preparou para ser, e almeja, um dia – que espero não longínquo – levada a cena como uma Opereta.


João Craveirinha faz uma abordagem, diria inédita, do poeta português Fernando Pessoa, quando já reconhecido internacionalmente, mas intercalando, a espaços e com sequência brilhante, partes históricas da África do Sul onde o poeta viveu cerca de 10 anos.
Dez gloriosos anos vividos na maior parte do tempo em Durban onde estudou e obteve um dos maiores galardões que um qualquer estudante poderia obter numa escola sul-africana: o prémio “Queen Victoria Memorial Prize”, pelo melhor ensaio de estilo inglês. Cem anos depois essa escola, a Durban High School, imortaliza-o colocando um busto seu, perto da biblioteca numa ala que passou a ser conhecida por “dead poets”.
Pois esta obra, que mais que uma peça de Teatro é, claramente, é um ensaio teatralizado da vida do poeta nos loucos anos que antecederam a II Guerra Mundial, que levaram à queda da I República Portuguesa e ao início do “apartheid”. E, em simultâneo, é aproveitado o lado místico e esotérico do poeta (não esquecer, e João Craveirinha não o esquece, que Pessoa foi o tradutor “oficial” do místico inglês Charles Leadbeather e de quem se tornou amigo), tornando, numa das principais personagens da obra, o espírito de uma princesa suazi-ronga (gravura representada na capa do livro ) que tenta (re)atrair Pessoa para as questões africanas e que este parece ter esquecido algures na sua imensa obra.
(E se analisarmos a obra de Pessoa e de todos os que a têm estudado, constata-se que a passagem africana está, unicamente, consubstanciada na ida para Durban, nos estudos locais e no regresso a Portugal, om passagem pelo Brasil).
Pois é isso que João Craveirinha tenta evidenciar nesta sua obra.
Mas João Craveirinha não se fica pela vida intelectual do poeta. Este é o princípio que norteia o enredo de “E a Pessoa de Fernando Ignorou África?”. João Craveirinha analisa a crise sul-africana que antecede o “apartheid” trazendo à colação personalidades como Hendrik Verwoerd (líder bóer), Winston Churchill (enquanto jovem e apaziguador advogado), Albert Luthuli (líder anti-apartheid e primeiro Nobel da Paz sul-africano) e last but not least, Nelson Mandela, o líder da conciliação.
as, João Craveirinha, aborda também – não esquecendo a sua veia histórico-investigadora que bem se lhe reconhece – as evoluções políticas ao longo dos anos, com particular destaque para os 8 impérios.
O autor, João Craveirinha, faz-nos caminhar pelo 1º império, o dos Faraós, até ao emergente 8º império, o do Dragão chinês , passando, sucessivamente, pelo dos Caldeus, Sírios, Romanos, Português (ou, na perspectiva de João Craveirinha, luso-britânico), Soviético e o da Águia Americana.
Mas é o neo-império chinês que nos começa a preocupar e que o autor deixa subentendido no final da III Cena do II Acto. Um emergente império que parece já querer, também, continuar a asfixiar África, na linha dos seus três ancestrais Impérios. Uma asfixia lenta e envolvente que já perdura há dezenas – centenas – de anos. Os têxteis sul-africanos já o sentem. Populacionalmente, alguns países também.
É esta maravilhosa e mística África (onde Pessoa parece ter bebido o eu esoterismo) que João Craveirinha pergunta se a Pessoa de Fernando ignorou?
Esta África que Luthuli, a certa altura, na cena III do VI Acto, grita “Hosi Sikê-léla Afrikaa” (Deus erguerá África).
A África que devemos ser nós a nos preocuparmos em a erguer, embora com a ajuda de Deus. “Ba Nto na Hosi Sikê-l´le Afrikaa”.

Kandandu África

Kanimambo João Craveirinha

Kanimambo

Eugénio Costa Almeida
Lisboa, 21.Setembro.2005

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