Eugénio Costa Almeida

Depois da conturbada eleição presidencial em que foi declarado vencedor, Félix Tshisekedi após ser empossado, a primeira visita oficial que fez ao exterior foi a Luanda, num périplo que o levará, ainda a outros dois países: o Quénia, onde o esperará, por certo, Raila Odinga – o líder da oposição queniana e convidado pela União Africana par moderar o litígio político entre Martin Fayulu e os resultados eleitorais na RDC –, e ao seu vizinho República do Congo.

Nesta primeira visita, de certo como todos os analistas esperavam, foram abordadas essencialmente as questões das deportações de congoleses irregulares, principalmente, os que estavam no garimpo nas Lundas, a situação nos Grandes Lago e o reiterar de manter a ampla colaboração entre os dois países, nomeadamente, no relançar da Comissão Mista Angola-RDC.
Oficialmente, nada mais seria de aguardar que não fosse isso.
Só que as relações Luanda-Kinshasa vão muito para além do respeito pela dignidade humana na deportação dos congoleses, como se referiu Tshisekedi nas palavras à imprensa, ou da segurança nas fronteiras entre os dois países e nas relações económicas que João Lourenço considerou serem fulcrais para o desenvolvimento da República Democrática do Congo e de Angola.
Por certo que muito mais terá sido abordado neste curto leaders meeting entre Tshisekedi e Lourenço. Terá sido, talvez, mais um breve “meeting point” para novas e profundas conversas sobre as relações entre os dois países, em particular no que toca a questões económicas (melhor aproveitamento do CFB e do porto do Lobito) e políticas.
Acredito que se não foram examinadas agora – até é possível que esta primeira visita oficial não tenha sido previamente bem preparada pelas Relações Exteriores dos dois países – somente o que transpirou para a comunicação social.
Não acredito que a visita tenha sido meramente protocolar, com a desculpa da resolução de situações primárias, as já referidas, e um “mero aperto de mão” entre dois Presidentes, mas serviu, por certo, para preparar ou tratar outros factos como as relações fronteiriças entre Angola e RDC e um reconhecimento tácito de Tshisekedi que, neste momento, Angola é o seu vizinho mais poderoso e com quem não deve criar conflitos político, daí Tshisekedi estar a recuperar a comissão mista Angola-RDC.
Questões como as da fronteira norte, na foz do Zaire, devido à exploration pétrolière – mesmo que a nível internacional já tenha sido resolvido, mas que Kinshasa não acolheu com agrado porque viu as suas pretensões fronteiriças realizadas – ou dos apoios locais na RDC às reivindicações separatistas de Cabinda (há muitos congoleses que não esquecem o princípio de acordo secreto de Sal, entre Spínola e Mobutu, que daria Cabinda ao Congo, e parte do norte de Angola – visaria conter o comunismo em Angola –, encontro esse que – nunca vi nada que o ateste, nem que o negue – terá tido também a presença do ministro Étienne Tshisekedi, pai o actual presidente), ou das reclamações do movimento lunda-tshokwe, em repor o principado e, de certa forma, o império Lunda…
Aguardemos as próximas e imediatas reuniões para vermos o que, de facto, será mais prioritário…

Publicado no semanário Vanguarda, edição 105, de 8 de Fevereiro de 2019, página 41: : a versão em pdf do jornal pode ser lida aqui 

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