Eugénio Costa Almeida

Falar sobre Viriato da Cruz, o político, um fundador – ou um dos fundadores – do moderno MPLA é tão fácil, quanto difícil.

Muito do que se sabe dele, tem-nos sido transmitido por camaradas seus que, directa ou indirectamente, conviveram com ele. O nacionalista Adolfo Maria, por exemplo, é uma das melhores fontes para falar de Viriato da Cruz com a distância e a cientificidade que a História exige.
O que se sabe, é que em 1956, Viriato da Cruz, defendia a criação de um amplo movimento libertador para as colónias portuguesas, em geral, e para Angola, em particular. Segundo uma Dissertação de Mestrado a ser, em breve, defendida por Palmira Reis, e citando, precisamente, Adolfo Maria, Viriato da Cruz foi o «grande teorizador político do nacionalismo angolano».
Por essa altura, outros nacionalistas começavam a emergir, como Mário Pinto de Andrade, Eduardo Macedo dos Santos, Hugo Azancot de Menezes e Matias Miguéis, que, com Viriato da Cruz, estavam agrupados num Movimento Anticolonialista (MAC).

E é a este movimento que Agostinho Neto, em fuga às repressões da antiga PIDE, pede para que se juntem e conversem visando, a partir do MAC e do Movimento para a Independência Nacional de Angola (MINA), formar um amplo movimento que iria dar no MPLA.

De notar que em Janeiro de 1960, numa conferência, em Tunes (a dos Povos Afro-Asiáticos) ainda não era o MPLA o representante angolano. Segundo Lúcio Lara, era uma Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional da Colónias Portuguesas (FRAIN) – incluía angolanos (Viriato da Cruz e Lara) e o PAI (Partido Africano da Independência da Guiné, representado por Abel Djassi (ou Amílcar Cabral) – bem como a União dos Povos de Angola (UPA), liderada por José Guilmor (pseudónimo de Holden Roberto).

Viriato da Cruz, foi sempre um teorizador da união de todos os angolanos em torno de um amplo movimento libertador. Nesse sentido, por volta de 1961/62 propôs a Holden Roberto uma união entre o MPLA e a (já) FNLA, até porque, Agostinho Neto, estava detido pela PIDE e Viriato da Cruz era o Secretário-geral do MPLA; na prática, embora Neto fosse o Presidente, era Cruz que detinha o real poder do MPLA.

Só que estas manobras unificadoras não terão sido bem vistas e em Dezembro de 1962, pela 1ª Conferência Nacional do MPLA, a relação entre os dois líderes que já não era das melhores – dois carismáticos chefes para uma mesma cadeira – deteriora-se e, por quando da votação de uma lista para o Comitê Director, onde o nome de Viriato da Cruz surge; Neto aplica uma máxima – que se tornará numa das suas mais importante – e que foi “ou ele ou eu”, o que levou Viriato da Cruz e outros seus seguidores a abandonarem o MPLA, a criarem um Comité pela Unidade e pela Cooperação e proporem a sua integração na FNLA, como representantes do “verdadeiro MPLA” (Edmundo Rocha e outros).

Neto, acaba por os expulsar do MPLA em 8 de Julho de 1963. Viriato da Cruz desterra-se na China, onde acaba por falecer completamente ignorado e na miséria.

Foi, como outros nacionalistas da fundação do MPLA, recentemente “reabilitado pelo Presidente João Lourenço”.

Referências
LARA, Lúcio, (1999), Documentos e comentários para a história do MPLA: até Fev. 1961; Lisboa, Publicações D. Quixote.
ROCHA, Edmundo et al (2008). Angola, Viriato da Cruz: O Homem e o Mito; Luanda, Prefácio e Edições Chá de Caxinde.

Publicado no semanário Vanguarda, edição 93, de 9.Novembro.2018, página 10): (Este artigo/ensaio também pode ser lido, na íntegra, aqui)

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